Capítulo I: A
Desastrosa chegada de Helena em Ignar
“Era uma vez” não é a melhor maneira para
iniciar esta história já que não se trata de apenas uma única história, Talvez
a melhor maneira seja “Eram algumas vezes”... Enfim! Agora que já comecei a
narração isso não interessa mais.
Antes de qualquer coisa deixe-me
apresentar Helena: Uma adolescente de quinze anos de idade; cabelos cacheados e
negros de um comprimento médio; olhos tão grandes e azuis que pareciam ter sido
arrancados de uma boneca; estatura normal para sua idade e pele clara que nada
combina com o Sol do litoral pernambucano. Como já deu pra perceber é em
Pernambuco onde reside juntamente com seus avós maternos numa casinha simples
de frente ao mar que quase toca a praia. Seus pais são grandes executivos e
sempre viajam a trabalho. Quando estão em casa, ou melhor, na sua casa volta e
meia ligam para Helena á procura de notícias da filha. De certa forma ela já se
acostumou com esta ausência, pois foi criada assim desde os seus primeiros
anos. E seus avós supriam bem esta “carência” de forma que as saudades eram
imperceptíveis. O clima praiano é o cenário perfeito para as brincadeiras
lúdicas dela e suas aventuras com poucos amigos. Embora isso não queira dizer
que ela seja antipática ou algo do tipo. Muito pelo contrário!
Apesar de ser bem singela, sua casa é bem
aconchegante e rica em livros por todo o lado. Influenciada por sua avó volta e
meia lia aventuras durante o alvorecer antes do crepúsculo. Sua bicicleta
vermelha é o principal meio de transporte de sua casa até a escola pela orla.
Gostava de sentir os cachos esvoaçarem pela brisa salgada que refrescava seu
rosto durante o percurso. Ficava chateada quando chovia e não podia o fazer a
pedaladas. Nunca deu trabalho na escola, mas às vezes ficava para
recuperação... Acho que já lhe contei o suficiente sobre ela. Bem, acima de
todas estas coisas a principal característica de Helena é sua fé. Sua avó,
Celina, sofre com uma doença que nenhum médico soube identificar. Volta e meia
sua querida avó desmaia, sente fortes dores e mal consegue se mover tamanho
sofrimento.
Helena nunca perdeu a fé de que Dona
Celina fosse curada. Sua fé não se baseava em uma religião ou algo do tipo...
Apenas acreditava que milagrosamente tudo ia dar certo: Sua avó seria curada,
seus pais voltariam a morar com ela e sua família estaria realmente completa
outra vez.
Agora sim posso realmente começar a
narração desta aventura. Se você é do tipo cético e sem o mínimo de imaginação
e insanidade para acreditar no que estou escrevendo, feche o livro e procure
outra coisa a fazer porque realmente vou precisar destes itens para que você
acredite em minhas palavras. Tudo começa numa noite quente de verão na qual uma
queda de energia elétrica ocorre. Os três, Helena e seus avós, reúnem-se na
melhor parte da casa que é a varanda na tentativa de fugirem da escuridão e
calor. Simplesmente levam consigo uma vela e um bom livro para passarem o
tempo.
Helena deita na rede junto de sua avó
enquanto seu avô lê a luz de velas o livro de páginas amareladas balançando-se
numa cadeira de balanço. Dona Celina acariciava seus cachos e Helena apenas
dava vida a cada palavra dita por seu avô com sua imaginação. A luz da vela
bruxuleava nas paredes, as estrelas cintilavam no céu e as ondas arrebentavam a
alguns metros dali. Todos estes fatores propiciavam estímulos extras para a
imaginação dela. Entre uma fala e outra de uma personagem o tempo mudou
bruscamente: Nuvens tempestuosas possuíram o céu e ventos frios sopravam grãos
de areia para a varanda.
Antes que a vela apagasse o trio entrou
para abrigar-se. Helena foi ajudar sua avó a preparar a janta enquanto seu avô
cuidava de fechar as janelas e afins. Não demorou muito para que demasiadas
gotas de chuva caíssem sobre os grãos de areia e o mar revoltasse. Da mesma
maneira que surgiu, a tempestade desapareceu deixando os ares da região mais
frescos. Após o jantar Helena decidiu caminhar na praia para pensar um pouco.
Afinal, um pouco de solidão não faz mal a ninguém. Vestiu seu vestido rendado e
praiano que ficava um palmo acima dos calcanhares e saiu. Descalça pisou na
areia ainda molhada e sentiu um arrepio dos pés à cabeça. Não estou falando de
um arrepio daqueles quando se está febril ou algo do tipo, mas sim um arrepio
suave e agradável.
Após uns dois ou três minutos de caminhada
ela avistou um objeto cintilante que estava semi-enterrado na areia, próximo a
arrebentação das ondas. Puxou um pouco do vestido com as mãos para facilitar a
caminhada acelerada até o objeto e foi ao seu local. Facilmente o desenterrou.
Era um espelho oval do tamanho de um pequeno prato. Helena o lavou na
arrebentação para remover os grãos de areia e poder estudá-lo mais atentamente.
Teve de mergulhar o espelho três vezes para remover completamente à areia. Só
então pode contemplar os seráficos detalhes do objeto. Este é prateado com as
costas bordadas em fios dourados e uma pedrinha azulada na ponta de seu cabo
também prateado. De certa forma ficou surpresa por não encontrar nenhum
arranhão no vidro e deduziu que alguém o perdera recentemente.
Ao olhar mais atentamente para o espelho e
ver seu reflexo, Helena realmente surpreendeu-se. O reflexo de seu rosto era
nítido no vidro, porém ao invés de o espelho mostrar a praia ao fundo outra
imagem foi refletida. O cenário de fundo era uma densa floresta escura que a
hipnotizou por alguns segundos que pareceram minutos. Helena não conseguia
parar de vislumbrar a imagem. Parecia até estar enfeitiçada. Quando despertou
do transe percebeu e sentiu que já não estava mais na praia. Seus pés não
estavam sendo molhados pela arrebentação, mas sim pisavam folhas secas e afins.
Ao seu redor frondosas árvores erguiam-se de forma colossal fazendo-a parecer
um inseto num jardim. O cheiro salgado da maresia foi substituído por odores da
floresta. Lama, folhas, flores, frutos e substratos compunham os ares do local
que invadiam as narinas dela. Em suas mãos o espelho terminara de emitir uma
luz branca fazendo tudo ficar novamente envolto em trevas. Nenhum ruído era
ecoado na mata e aquele silêncio a deixou ainda mais confusa e amedrontada.
Desnorteada e sem saber para onde ir
Helena gritou por socorro. E inconscientemente utilizou de sua fé para com a
possível ajuda. Novamente o espelho iluminou o local, embora de uma maneira
diferente. A prata do artefato emitia uma tênue luz azulada que foi o
suficiente para dar um norte à Helena. Uma ponta de esperança nasceu em seu coração
juntamente com a luz que o espelho emitira. O coração pulsava rapidamente e
tremer já não era uma opção. Não estou dizendo que estivesse frio, apenas que
Helena estava realmente assustada com aquilo. Cuidadosamente foi dando seus
primeiros passos naquele local sombrio com o auxílio da luz. Em sua confusa
mente as perguntas “O que aconteceu comigo” e “Onde estou” ecoavam diversas
vezes. No meio daquela escuridão entre galhos e folhas acima de sua cabeça ela
avistou pequenas “coisas” brilhando como vaga-lumes, só que bem maiores. Juntamente
com as luzes era possível ouvir um zumbido de pequenas asinhas. Novamente
gritou por socorro e aquele ser brilhante voltou de dentre as trevas e parou de
frente a ela.
Este ser trata-se de uma pequena fada
dourada. Devia ter uns dez centímetros de comprimento e batia as asas
membranosas num ritmo frenético produzindo um zumbido característico. A fada, de
corpinho desnudo e olhinhos inocentes, ficou parada diante de Helena a
encarando e vice versa. Numa pirueta a fada desceu voando até a mão da
aventureira e viu seu espelho. Helena ainda não acreditava no que via, mas mesmo
assim resolveu falar com a pequenina:
- Preciso da sua ajuda,
amiguinha. - Falou Helena ainda não acreditando naquilo que acabara de ver.
Aos poucos a fada foi voando mata adentro
e na medida do possível Helena a seguia. Seus pés já estavam doloridos graças aos
pequenos detritos das árvores no solo. Uma carga de adrenalina foi dispersa em
seu corpo e seguir aquela fada foi simplesmente um reflexo dela. Conforme ambas
avançavam Helena avistava um brilho, semelhante ao de sua guia, ficando cada
vez mais intenso. A fada levou Helena até uma clareira na qual uma árvore de
tronco largo e flores grandes abrigavam várias fadas semelhantes a ela. Como
abelhas numa colmeia as fadas entravam e saiam das flores. Pareciam estrelas
circulando a árvore.
Assim que perceberam a presença de Helena
no recinto, todas elas esconderam-se nas suas flores e apagaram seus brilhos.
Helena cautelosamente aproximou-se após perceber o que provocara. Pigarreou
para controlar seu tom de voz e da maneira mais suave o possível, disse:
- Fiquem calmas, amiguinhas.
Não vou machucar vocês. “Não acredito que estou conversando com fadas”. –
Pensou consigo mesma. -Prometo que não farei mal algum. Preciso da ajuda de
vocês. Onde estou?
Naquele momento trechos de Alice no País das
Maravilhas vieram à tona na mente dela. Estava se sentindo a própria Alice
naquela situação. Morosamente dentro das flores pequenas luzes foram surgindo e
quando sentiram que Helena verdadeiramente não lhes oferecia perigo.
-“Realmente só posso estar
sonhando ou estou louca!”- Novamente pensou Helena- “Isso não é possível”.
Após estes pensamentos de incredulidade
(Que são totalmente aceitáveis nesta situação) uma voz dentro dela parecia
conformar sua mente e coração com tudo aquilo. Era como se toda a situação
fosse corriqueira.
- Não sei onde estou. Será
que podem me levar a um lugar seguro onde eu possa encontrar ajuda?- Pediu ela
novamente.
Rapidamente as fadinhas agarraram o que
podiam nela: Barra do vestido, dedos, mangas e até em alguns cachos de cabelo.
- Já entendi o recado,
amiguinhas. Podem ir à minha frente que eu as sigo, mas vão devagar, por favor.
Está muito escuro aqui e estou descalça.
Dito e feito. Boa parte do grupo foi à
frente de Helena, enquanto o resto ia escoltando-a com todo o cuidado possível.
Cada passo tornava-se cada vez mais sôfrego para os pés de Helena. Pedras,
gravetos, espinhos sabe-se lá mais o que contribuíam para isto. Algum tempo
depois chegaram à orla da mata. Sair daquele ambiente hostil foi um grande alívio
para Helena que se sentiu um pouco menos em perigo. Deparou-se com um caminho
de terra que ia até um enorme palácio de um lado e na outra direção perdia-se
na escuridão de uma curva.
- Tenho que ir para lá?-
Perguntou Helena apontando para o palácio.
Todas as fadas assentiram com gestos e
balançadas de cabeça. Prestes a dar o primeiro passo uma das fadas a
interrompeu interpondo-se e gesticulou para que Helena esperasse por alguns
momentos. Esta fada disparou floresta adentro como uma bala e não demorou muito
para voltar com um presente em seu colo. Trata-se de um casulo de fibra sedosa
e translúcida do tamanho de um polegar com um pequeníssimo brilho em seu
centro. De uma maneira mágica as outras fadas teceram um cordão de seda ao
derredor do pescoço de Helena e a fada com seu presentinho o amarrou a ele.
Depois de presenciar tudo o que acabara de ver, Helena, de certa forma já se
conformara com o surrealismo do local. Percebendo do que se tratava ela fez uma
pequena mesura para suas amiguinhas cintilantes utilizando seu vestido.
A fada que havia lhe presenteado também
fez uma mesura desajeitada, porém carismática. Depois de novamente agradecer
com um “Muito obrigada” ela partiu rumo ao palácio deixando suas guias
retornarem para dentro da mata.
Seus pés doíam um pouco menos, pois só
havia algumas pedrinhas no caminho e ela as evitava ao máximo. Lembrou-se de
imediato da areia molhada que a pouco encontrou seu espelho. O palácio ia
erguendo-se cada vez mais e no coração de Helena uma esperança de voltar para
casa crescia também. O edifício era cercado por uma sebe alta e que se perdia
de vista tanto para a direita quanto para a esquerda. Um portão de bronze
impunha-se no fim do caminho perante ela. Chegando mais perto do portão Helena
reparou que nele não havia fechadura, cadeado, corrente ou qualquer tipo de
aparato que o fechasse ou abrisse. Apenas uma fenda dividia o portão em dois
lados bem no seu centro e ia de cima a baixo.
Antes que Helena pudesse bater palmas ou
chamar alguém o portão abriu-se com um rugido metálico um pouco inconveniente
naquele momento. Ela até pensou em espiar pela fenda embora agora o portão já
esteja aberto. Um jardim majestoso foi apresentado a ela pelo portão: Fontes de
mármore jorravam água quebrando o silêncio; Flores descansavam em seus devidos
canteiros ansiosas por um cálido dia de Sol; Postes antigos e bem feitos
iluminavam o local com luzes âmbar; E o mais importante de tudo... Grama
verdinha e bem aparada.
Um caminho pavimentado ia até o pórtico de
entrada do palácio, entretanto as solas dos pés dela pediam socorro.
Automaticamente tomou o gramado com percurso até o pórtico. As folhas
verdejantes e frescas as massageavam aliviando sua dor e um pouco do medo
também. O palácio possuiu uma simetria neoclássica sublime e também era
iluminado por luzes de âmbar. Cada janela, e eram muitas, possuía um arco e uma
pequena saca. E bem no centro do edifício uma torre de relógio o deixava ainda
mais mágico com seu sino de bronze.
Helena até sentiu-se indigna de adentrar o
palácio, porém precisava esclarecer tudo que ocorrera e voltar logo para casa.
Ali poderia haver ajuda para isto. Seus avós já deviam estar muito preocupados
com ela, pois o relógio da torre marcava exatamente oito e meia da noite. Os portões
do palácio estavam abertos e ela sem hesitar, embora acanhada, adentrou. Tudo
parecia ser um cartão de boas-vindas bem convidativo.
Ela deparou-se com um salão de luz dourada
e piso xadrez que a fascinaram fazendo seu queixo literalmente cair. Acima de
sua cabeça viu o majestoso lustre que reluzia como um segundo Sol. Estatuetas,
quadros e outros objetos compunham a decoração e evidenciavam ainda mais o
estilo neoclássico. Á sua frente havia duas escadas (à direita e esquerda) de
um novo pórtico e davam acesso a uma pequena sacada há uns dez metros do chão.
Um facho de luz mais forte vinha deste pórtico e vozes animadas também. Também
era possível ouvir o tilintar de talheres, copos e afins como se fosse um
restaurante em horário de pico. Esgueirando-se no pórtico e tomando cuidado com
seu pingente vivo e espelho mágico, ela espiou o local com apenas um olho a
mostra. Parecia estar brincando de pique - esconde.
No glorioso cômodo, várias mesas e
cadeiras tomavam conta do local que deve ser umas vinte vezes maior do que o
salão de entrada. No teto havia vários lustres para iluminar a todos que ali se
alimentavam. Muitos jovens da idade de Helena se alimentavam e papeavam ali.
Como já deu pra perceber era a hora do jantar. Ao fundo há uma mesa, a maior de
todas com seis adultos em seus devidos lugares. Dados os fatos, Helena deduziu
que o local fosse uma escola e acertou. Ainda vislumbrada com todo o glamour do
local ela não percebeu a aproximação de um dos alunos por detrás dela mesma.
-Posso ajudá-la?- Perguntou
o tal aluno pondo a mão no ombro de Helena.
Helena assustou-se abruptamente e num
átimo berrou e guinou para dentro do salão ficando à mostra para todos os que
ali estavam presentes. O estudante também se assustou deixando cair os dois
livros que carregava com a outra mão. Imediatamente todos que ali estavam
voltaram suas atenções a ela: Descabelada, pés sujos, vestido amarrotado e
também sujo, gotas de suor de puro nervosismo e o espelho em mão.
O aluno que a assustara recolheu os livros
enquanto pedia mil desculpas. Os primeiros comentários começaram a surgir como
simples buchichos e progrediram para risadas tímidas e por fim gargalhadas em
todo o salão. O aluno ficou tão constrangido quanto Helena. Foi impossível
evitar que lágrimas de nervosismo brotassem em seus grandes olhos azuis. Um nó
formou-se em sua garganta e falar não era possível. Para completar todo o
pacote, sua coluna vertebral tremia como vara-verde fazendo-a tremer por
completo. Tamanha foram a sua vergonha e susto que ela esquecera o seu objetivo
naquele local, que era pedir ajuda a quem quer que seja. Sua respiração ficou
descompassada e os joelhos travaram. As risadas e comentários maldosos e
infelizes não cessaram e a situação tornou-se insuportável para ela.
Do outro lado do salão, da mesa dos
professores, mais exatamente, uma senhora de longo e suntuoso vestido a fitava
com um par de olhos violeta e muita compaixão. Esta se levantou e mandou todos
calarem-se de uma maneira bem nobre na qual não precisou de repetição. Todos
obedeceram sem titubear. Esta senhora foi até Helena passando pelas mesas e a
abraçou com o maior carinho e cuidado que se pode haver numa doce senhora. Seus
cabelos brancos e presos num coque davam-lhe um ar ainda mais materno.
-Desculpe-nos minha querida.
Não chore mais. Venha comigo, vou cuidar de você. - Disse a doce senhora
enquanto abraçava Helena e a consolava com todo o seu carinho.
O solene vestido dela parecia envolver
Helena e protegê-la de todos os males que foram ditos e gargalhados no salão de
jantar. A pela clarinha, pouco enrugada e firme, cheirava a flores com os mais
incríveis olores. Helena não conseguia sentir mais nada além do abraço
maternal, o aconchegante vestido e o perfume daquela senhora tão caridosa. Ela
estava embriagada de tanto nervosismo e anestesiada de carinho e proteção.