Capítulo III: Aprendendo a ser clériga
Enfim Helena e Gabriel chegaram ao pórtico
do templo. Lá mesmo a professora responsável recepcionava os alunos com um
abraço. O abraço era um pouco diferente do convencional. Sempre que a
professora envolvia o aluno com seus braços tocava a nuca dele ou dela com sua
mão direita e o aluno também o fazia e desejavam bênçãos.
Esta é a professora Clorin. É uma mulher
jovem, aparenta ter uns vinte oito ou vinte e nove anos. Seu capuz quase sempre
está sobre os cabelos longos e ruivos e possui um andar catedrático. Parece até
que cada passo seu é mirado no chão de uma forma precisa. O corpo franzino e
voz aguda davam-lhe um ar frágil e solitário, entretanto uma paz inenarrável
transladava de seus olhos castanhos.
A fachada do prédio era repleta de
estátuas brancas de mármore e símbolos que Helena nunca vira. O pórtico era a
única entrada e saída do local que é circular. Havia várias janelas ao derredor
dele com vitrais multicoloridos representando cenas da mitologia ignariana.
-Que lá é bem real! Enfim. A cúpula do prédio também é composta de vitrais
multicoloridos e em seu topo uma pequena esfera prateada orbita ao derredor de
uma dourada que tem três vezes mais seu tamanho. Ambas representam o Sol e a
Lua e Helena logo percebeu tal simbolismo.
Ao aproximar-se mais do pórtico e da
professora Helena vestiu seu capuz e permitiu que Gabriel tomasse a iniciativa.
Clorin o abraçou, mas ele não tocou sua nuca. Apenas a abraçou normalmente.
Assim que a professora abraçou Helena, Gabriel por detrás dela gesticulou para
que Helena tocasse a nuca dela e assim o fez. Durante o abraço a professora
disse “Que o grande Pai lhe aqueça”.
Ela e Gabriel entraram no templo enquanto
a professora cumprimentava os últimos alunos a chegar. O piso do templo é de um
mármore tão negro que é possível ver seu reflexo nitidamente nele. No centro do
templo há um círculo com diversos símbolos desconhecidos para ela na cor
dourada.
A luminosidade no local é única e fez
Helena ficar boquiaberta literalmente falando. Vários fachos de luz com
diversas cores cruzavam-se dando um ar místico para cada centímetro cúbico do
templo. Os alunos iam sentando-se ao derredor do círculo com suas capas sobre
os ombros. Havia mais dois aprendizes de filósofo no local com um bloquinho em
mão anotando coisas mil com suas cartolas sobre a cabeça.
Assim que Helena e Gabriel assentaram ele
puxou sua cartola sabe-se lá de onde e a vestiu. Helena ficou curiosa e logo
perguntou o porquê do uniforme dos filósofos.
-De certa forma é uma
“brincadeira” nossa. -Respondeu Gabriel. –Dizemos que é para não deixar as
idéias fugirem de nossa mente, já que são muitas.
Helena achou a justificativa estranha e ao
mesmo tempo engraçada. Mas de certa forma fazia sentido. Finalmente o último
aluno chegou e a professora Clorin pode iniciar sua aula. Antes de começar seus
ensinamentos esta foi até um canto da sala, pegou uma bolsa semelhante à de
Gabriel e a entregou a Helena.
-Começamos há apenas uma
semana atrás então você não perdeu muita coisa. Aqui estão todos os materiais
básicos que iremos usar este ano. Os demais eu trago durante as aulas para
todos os alunos. –Disse a professora Clorin com sua voz aguda.
Clorin começou sua aula falando um pouco
sobre o que já havia lecionado na semana anterior. Era a segunda semana de
aula, então Helena não havia perdido nenhum conteúdo de extrema relevância. Enquanto
ela falava todos os alunos, com exceção de Helena, Gabriel e os outros dois
filósofos, faziam anotações em seus cadernos de uma forma nada convencional. O
caderno flutuava próximo ao seu dono com uma pluma escrevendo tudo o que era
dito. Helena achou aquilo algo formidável e logo pegou estes itens em sua
bolsa.
-Como faço? –Cochichou ela
para Gabriel que estava compenetrado em suas anotações.
-Você é uma clériga...
Então, apenas acredite com sua fé que irá acontecer.
“Você faz parecer tão fácil!” Pensou ela.
Helena olhou para a pluma branca e o caderno e simplesmente acreditou que eles
fossem escrever. Num átimo ambos saltaram de sua mão e ficaram flutuando em sua
frente.
-Algum problema, Helena?
–Perguntou a professora Clorin docemente. –Qualquer dúvida apenas levante a mão
e terei o maior prazer em ajudá-la. Ah! Como pude me esquecer de lhe explicar o
básico? Desculpe-me. Leia a palavra em sua mente com sua fé e pronto. Não é tão
fácil de primeira, mas...
Antes mesmo que a professora terminasse
suas explicações a pluma de Helena escrevia tudo o que lhe vinha em mente num
ritmo frenético. Todos ficaram espantados com a cena e Clorin admirada com o
feito de sua nova aluna. Elogios não foram dispensados da parte dela que
prosseguiu com a aula. Antes que Gabriel abrisse a boca para perguntar algo
Helena cochichou:
-Não me pergunte como o fiz.
Apenas fiz.
Ela riu de soslaio e Gabriel voltou aos
seus pensamentos e anotações à mão. O primeiro tema a ser tratado foi o poder
das palavras que saem da boca de um clérigo.
-Algum de vocês reparou algo
enquanto eu os abraçava? –Perguntou a professora Clorin de uma forma irônica.
Gabriel rapidamente levantou a mão para
responder a pergunta e antes mesmo que sua fala fosse permitida o fez:
-A senhora nos abençoou como
se deve fazer um bom clérigo.
-Muito bem Gabriel. Mas
vamos com calma, por favor. Quero explicar tudo com bastante calma para que não
haja dúvidas quanto a isto. –Falou a professora. – Nós temos a dádiva de
abençoar ao próximo e ao mesmo tempo amaldiçoar.
A animação da turma foi inevitável. Helena
estava tão animada que sorria sem parar como se estivesse assistindo a um
espetáculo de circo.
-Embora... –Continuou a
professora Clorin com suas explicações. –Devemos ter muito cuidado com esta
dádiva divina. Nunca, prestem bem atenção, nunca devemos fazer ambas as coisas
sem um motivo muito forte para isso! Tudo o que vai, volta.
-Oba. Então abençoarei a
todos! –Brincou um dos alunos clérigo.
-Era exatamente neste ponto
onde eu queria chegar! –Bradou alegremente a professora Clorin. –Nem sempre
funciona assim. Se por um acaso eu amaldiçoar alguém sem um bom motivo ou para
minha defesa a maldição volta duas vezes pior para mim. E se eu abençoar alguém
com interesse nesta bênção, o contrário me ocorre e duas vezes pior.
Entretanto, se verdadeiramente me compadecer de alguém ou realmente quiser o
abençoar como gratidão, serei abençoada. Nunca se sabe quando ou por quem, mas
é certo de que serás abençoado.
Todos estavam com os olhos vidrados na
professora Clorin e temiam perder uma só palavra do que ela estava dizendo em
suas anotações. Helena estava fascinada com tudo aquilo e apenas observava com
um largo sorriso nos lábios.
-Há mais um “detalhe” que
necessita de muita atenção! –Continuou a professora Clorin. –Jamais se esqueçam
do que vou lhes dizer! Quando vamos abençoar estendemos a mão direita em
direção ao objeto da ação. Ou o tocamos, assim como o fiz agora a pouco na
entrada com todos vocês.
Um estalo de fleches passou diante dos
olhos de Helena. Agora sim ela entendeu o porquê do abraço clerical ser
diferente e tão especial. Agora sim fazia sentido o fato de Gabriel não ter
posto a mão na nuca da professora Clorin.
-Em última instancia devemos
amaldiçoar algo ou alguém! –Advertiu Clorin bem séria. –Uma vez amaldiçoado,
sempre amaldiçoado! A não ser que outro clérigo não saiba da maldição lançada e
abençoe o amaldiçoado. Assim a maldição é quebrada. Há mais uma condição para
que a maldição seja desfeita. Um exemplo: Eu, Clorin, chego até vocês e digo
“estou amaldiçoada!” e vocês se compadecem e me abençoam sendo liberta da maldição.
Isso não irá funcionar! Eu teria de fazer por merecer a bênção de vocês. Quanto
mais detalhados e sucintos forem os seus dizeres no momento da ação, melhor
será o efeito desejado.
Pelas expressões de todos era possível
perceber que o conteúdo fora muito bem explicado e que aula fora bastante
interessante.
-Caso tenham alguma dúvida
não se acanhem e me perguntem. –Admoestou novamente a professora Clorin.
Ninguém se manifestou sobre e ela partiu
para a fase prática da aula. Foi até um canto do salão e pegou um vaso com uma
flor murcha e quase morta plantada nele. Pôs o jarro no centro do círculo e
chamou um voluntário para abençoar a pobre e moribunda flor. Uma das clériga
que estava sentada o mais próximo o possível da professora se candidatou e num
pulo de animação levantou-se. A aprendiza foi até o vaso, ergueu a mão sobre
ele e disse:
-Desejo sua vitalidade total
para que... Para que... –A aprendiza titubeou por alguns instantes e finalmente
completou o verso. –Para que volte a forma real.
Nada
aconteceu com a flor. Embora a aprendiza sofresse as conseqüências de sua
bênção mal sucedida. Sua aparência de animada passou a ser moribunda. Olheiras
pesadíssimas surgiram em seus olhos e bocejar já não era mais uma opção. Seu
rosto todo ficou pálido e não conseguia ficar numa posição ereta. Clorin tomou
as rédeas da situação e logo impôs a mão direita sobre sua cabeça dizendo:
-Querer não é poder. Que sua
aparência volte ao que era ser.
Imediatamente tudo se resolveu. Todos
ficaram estupefatos com a cena e a própria professora Clorin quebrou o
silêncio:
-Alguém sabe me dizer por
que isto aconteceu? –Gabriel apenas soprou a resposta óbvia para Helena
enquanto a professora aguardava a resposta de alguém.
-Ela não o fez de coração
sincero. –Soprou Gabriel.
Clorin percebeu a resposta e apenas
assentiu com um sorriso disfarçado para ele e Helena. Naquele momento, Helena
também sussurrou palavras ao vento, mas com um objetivo específico. Porém com
sua mão discretamente apontada para a flor sem que nem ao menos Gabriel
percebesse tal ato.
-Meus olhos alegres ficam ao
te olhar. Suas cores vivas voltam a me encantar. –Soprou Helena.
De súbito a flor ficou ereta e suas
pétalas mórbidas tornaram-se vívidas. Os olhos de Helena brilharam de alegria e
Gabriel só então percebeu o feito de sua nova amiga. Todos os alunos entre
olharam-se à procura do ou da responsável pela bênção. Clorin olhou diretamente
para Helena e assentiram com a cabeça discretamente como se fosse um sinal de
parabéns.
-Minha cara, sua animação ao
fazer a bênção foi tanta que deixou a compaixão de lado e o ego subiu-lhe à
cabeça. –Advertiu Clorin com o máximo de cautela o possível para não
desestimular a aluna.
Naquele momento o sino da torre do relógio
soou indicando o horário do intervalo. A professora despediu seus alunos
pedindo que a encontrassem na beira do lago para dar continuidade à aula.
Gabriel e Helena saíram logo após guardarem seus materiais e pegarem as frutas
que Gabriel havia pegado na noite passada. Foram até o Jardim frontal da escola
e sentaram em um dos bancos de concreto para aproveitar o lanche.
O clima estava agradável e bem cálido. As
últimas gotículas de orvalho reluziam os raios solares e as flores pareciam
dançar conforme a música dos pássaros que por ali voavam de um galho a outro.
As fontes jorravam água fazendo pequenos arco-íris surgirem em suas bacias e os
pássaros banharem-se. Não havia tantos alunos pelo jardim durante aquele
horário. A maioria deles ficava à beira do lago papeando e fazendo essas coisas
de colegiais.
Logo retornaram para suas devidas classes
ao ouvirem o sino de Trumptom badalar. A aula clerical prosseguiu com Clorin
fazendo mais ponderações sobre o tema que já havia lecionado antes do
intervalo. Os grandes olhos de Helena permaneciam atentos a cada movimento da
professora e sua pluma escrevia num verdadeiro frenesi de animação. Gabriel também
não ficava atrás.
Findada a aula, Clorin despediu-se de
todos e ficou no templo para organizar alguns itens que levara para a aula.
Helena estava tão animada que seu coração batia mais rápido e um largo sorriso
não lhe saía dos lábios. Gabriel ficou tão feliz quanto ela, afinal era sua
única companhia naquela enorme escola. Um calor de meio-dia tomou conta do
local e as águas azuladas do lago tornaram-se convidativas. Juntando este fator
com um céu límpido e um Sol radiante, a vontade de mergulhar tornou-se ainda
mais incontrolável.
Clorin não havia marcado nenhuma atividade
extra naquela tarde. Sendo assim, Helena estava livre de compromissos e
combinou de visitar o professor Henry junta de Gabriel. Ele tinha de levar seu
ovo de grifo para um “check-up” geral e aproveitou a chance para mostrar o
resto do terreno da escola. Enfim almoçaram e descansaram um pouco para evitar
problemas digestivos. Foram até o quarto e pegaram o que iriam precisar.
Gabriel pegou o ovo, e Helena aconselhada por ele, pegou seu casulo de fada.
Finalmente desceram para o lago e foram
mata à dentro com Gabriel como guia.
-Grande parte da floresta
pertence à escola. -Disse Gabriel puxando assunto logo para que a caminhada não
ficasse tão longa. –Há uma sebe mais à frente que delimita esta posse. E um
pouco mais à frente mora o professor Henry. Ele é o filósofo de Trumptom.
Gabriel desviou seu passo de um galho que
estava caído na trilha em que seguiam e disse para Helena tomar cuidado onde
pisa.
-Nossa! Que estranho alguém
morar no meio de uma floresta assim.
-Henry é um observador da
natureza. Toda a sua filosofia é voltada para os seres vivos e por isso mora
por aqui. Já catalogou inúmeras espécies no local pretende continuar assim por
um bom tempo.
Helena tinha motivos de sobra para dizer
aquilo. As árvores eram imensas e poucos fachos de luz solar atravessavam por
suas copas. A todo instante era possível ouvir o som de algum ser se movendo na
floresta. Alguns insetos bem estranhos voavam de um lado para o outro e volta e
meia se deparavam com um fruto. O tapete natural invadia a trilha uma vez ou
outra pelo caminho, mas Gabriel sabia muito bem por onde estava indo. Helena
sentia um cheiro agradável e úmido no ar. Sei que água é inodora, mas quando
estamos nos aproximando de uma cascata é impossível não sentir aquele ar
maravilhoso. E foi isso que ela Captou com suas narinas.
Logo chegaram à sebe. Não era muito alta
embora fosse muito espessa. Havia uma pequena portinhola no caminho da trilha e
foi por ela que passaram. A presença de água tornou-se ainda mais perceptível e
Helena logo perguntou a Gabriel se havia um rio ou algo do tipo próximo a eles.
-Há o rio Fluxia aqui perto.
É um ótimo lugar para se pescar. Embora tenha que pedir permissão para a elementar
de lá. Ela é bem simpática e deixa que pesquem à vontade quase sempre, contanto
que não façam bagunça em sua casa.
Helena não sabia muito bem o que são
elementares. Apesar de Clorin ter falado deles rapidamente Helena ainda não
havia conseguido associar uma imagem certa do que são. Ela apenas sabia que
eles controlavam forças da natureza e que são divindades presentes. Ou seja,
estão em Ignar e podem ser visualizadas da forma como queiram se apresentar a
seus observadores. Os clérigos conseguem enxergar com muita facilidade os
elementares. Por mais que eles se escondam das outras castas, os clérigos
sempre irão poder vê-los. Novamente Helena questionou Gabriel sobre
elementares. E foi esta explicação que ele a deu.
Depois de cinco minutos de caminhada
chegaram à casa do professor Henry. Quero dizer, à cabana. Ficava situada numa
clareira bem ampla e tinha uma pequena horta à direita, um pomar à esquerda e
seu teto estava revestido de ervas. Tinha um quarto no andar de cima com uma
pequena sacada e dela dava tranquilamente para colher as ervas do teto. E era
lá que estava o professor Henry. A pequena chaminé estava empoeirada e com
musgo crescendo na borda. Aparentava não ter sido usada há muito tempo.
Henry percebeu de imediato a chegada dos
dois alunos e acenou para ambos e logo os convidou para entrar. Gabriel
respondeu com um aceno enquanto segurava o ovo de grifo com a outra mão. Henry
entrou em seu quarto e pouco antes de Helena e Gabriel chegarem já estava na
porta os aguardando enquanto limpava as mãos sujas de terra no avental de
jardinagem que trajava. É jovem e deve ter uns vinte e sete ou vinte oito anos
de idade. Os cabelos negros são muito cacheados e, volta e meia, algum cacho
caia sobre sua testa. É alto e esguio com mão muito grande embora delicado.
Helena logo o percebeu, pois a horta e pomar são muito bem organizados e
cuidados.
-Que o grande Pai vos
ilumine. –Cumprimentou Henry simpaticamente. Espero que Asas esteja bem.
Gabriel apertou a mão do professor e
Helena também o fez. Henry tem um cheiro agradável de madeira misturado com
folhas e terra molhada. Helena logo no início incomodou-se um pouco, porém
acostumou-se rapidamente e começou a apreciar o olor da floresta que dele
exalava. A cabana parecia pertencer a um duende ou outro ser do tipo, tamanha
era sua ligação com a natureza. Adentraram-na com o professor à frente. A porta
de entrada dá acesso à sala da cabana. Atrás da sala há a cozinha e à esquerda
da sala há uma biblioteca/laboratório. Gabriel como já estava muito bem situado
com o local, apesar de sua única semana em Ignar, logo foi para este cômodo.
Helena apenas os seguia e foi impossível
não reparar na decoração do local. Artesanatos se espalhavam por todo o local
deixavam o ambiente muito aconchegante. A mobilha é simples mas de bom gosto.
As janelas estavam escancaradas e a luz cálida do sol invadia o local.
Automaticamente ela lembrou-se de sua casa e seu avô e avó. Quando será que
esta loucura toda irá acabar? Pensou consigo mesma. Porém rapidamente esta
pergunta foi respondida, ou melhor, esquecida graças a Gabriel:
-Helena, onde está seu
casulo de fada?
Rapidamente Helena puxou o casulinho de
dentro de sua camisa e o tirou com todo o cuidado do pescoço. Ela o entregou a
Gabriel que o entregou ao professor Henry. Já estavam dentro do laboratório
quando isto aconteceu. Há uma grande mesa de madeira bem grande no centro do
recinto e muitos frascos com amostras de folhas, flores, unhas, penas e
qualquer outro material orgânico que possa ser estado. Tudo estava muito bem
etiquetado e apesar da aparente bagunça, Henry sabia muito bem onde estava o
que ele quisesse. Livros tomavam conta das prateleiras nas paredes do local. A
Única janela estava meio aberta apenas para ventilar o local, e uma lâmpada
dava conta de iluminar tudo muito bem.
Helena ficou se perguntando como havia
eletricidade naquele lugar e desistiu de tentar adivinhar logo depois da
primeira teoria. Gabriel colocou o ovo sobre a mesa num suporte de madeira que
encaixava perfeitamente na sua base. Henry ficou segurando o envoltório muito
surpreso e animado com ele.
-Gabriel, vá pegar dois
bancos na cozinha para vocês dois. A caminhada até aqui não é nada curta. Então
você é a famosa Helena? -Falou ele olhando com seus olhos curiosos e simpáticos
para Helena.
-A Helena sou eu sim, mas a
parte da famosa eu já não sei. –Respondeu Helena sorrindo e correspondendo a
simpatia do docente.
-Como assim? Você é o
assunto mais comentado em Trumptom desde ontem e hoje de manhã também. Enfim,
minha cara. Será que você pode me contar como conseguiu esta crisálida? Não é
todo dia que alguém consegue uma. Pra falar a verdade há muito tempo não vejo
uma dessas. E quando vi à primeira vez na minha infância estava vazia.
Enquanto Henry falava procurava algo em
uma das gavetas de uma das bancadas que por ali há.
-Eu ganhei este casulo das
fadas que me ajudaram ontem à noite...
A partir daí Helena começou a contar tudo
o que lhe acontecera até finalmente chegar a Trumptom. Como você já leu esta
parte vou poupar-lhe das redundâncias.
-Que interessante isto!-
Henry havia encontrado um óculo com uma lente super potente e estava observando
atentamente o casulo. -Fadas são muito dóceis e não tem contato com humanos tão
facilmente. Jamais encontrei um caso nos livros e na vida que narrasse uma
história dessas. Não estou duvidando de você, pois conseguir um casulo desses é
quase impossível. Ainda mais com o seu conteúdo!
Henry ficava mais animado a cada piscadela
que dava no casulo. Gabriel entrou no local com dois banquinhos de madeira e os
posicionou próximos a mesa. Enquanto ele e Helena sentavam-se foi logo falando:
-E então? Nasce quando?
-Não sei dizer ao certo.
Nunca estudei antes fadas como estou estudando agora. Entendo como fazem seus
casulos, quanto tempo tem em média vivem na fase adulta, mas no período de
formação na crisálida não faço a mínima idéia. Pode ser que a qualquer momento
rompa o casulo, ou também que demore semanas.
Henry devolveu cuidadosamente o casulo a
sua dona e a parabenizou de novo por seu presente exuberantemente raro. Em
seguida começou a examinar o ovo de Gabriel.
-Acho que falta uns cinco ou
seis dias pra que ele nasça. Seria melhor você deixá-lo aqui comigo pra evitar
qualquer surpresa desagradável. Quem sabe no meio da noite Asas rompe a casca e
você vai ter que trazê-lo aqui altas horas. Não vai ser nada bom.
Gabriel concordou que o ovo ficasse com
Henry. Confiava plenamente em seu tutor sem a menor sombra de dúvidas. Helena o
perguntou como Gabriel ganhou o ovo e obteve sua resposta.
-Eu o encontrei aqui na
floresta logo que cheguei. Como eu lhe disse, cheguei à biblioteca de Trumptom
e após receber a assistência de Silvia e os demais docentes eu resolvi andar
por ai pra espairecer. Acabei me embrenhando pela mata e no caminho encontrei
Asas. Foi então que o professor Henry me encontrou.
A partir deste ponto a conversa desandou
entre Henry e Gabriel. Helena quase não falava, e, quando o fazia geralmente
estava perguntando algo. Conversaram sobre plantas, flores e seres da floresta
que volta e meia surgem nos limiares de Trumptom. Professor Henry implorou para
que Helena o invólucro de sua fada assim que ela nascesse. Ela concordou sem
nenhum contraponto.
Quando Henry reparou as horas já havia
passa das quatro e da tarde e com muita pressa mandou que Helena e Gabriel
voltassem para Trumptom rapidamente. Afinal, quando o sol se fosse ficaria
inviável voltar para a escola pela trilha e ela é o único caminho até a escola.
Helena colocou seu capuz sobre a cabeça, pois queria se sentir imponente
novamente e isto lhe fez um bem tremendo. Novamente sentiu algo muito bom
quando o fez. Despediram-se muito rapidamente do professor e voltaram para a
trilha. Estorvaram o passo e conseguiram chegar a tempo na escola. Pouco antes
do lanche na verdade.
Ambos estavam um pouco ofegantes e
ansiavam logo por alguma refeição. Distraíram-se tanto que esqueceram
completamente da hora, mas chegaram, e era isso o que importava. Comeram até
saciar a fome por completo e Gabriel recolheu algumas frutas nos bolsos da
calça e levou para o quarto. Ele desceu para ir à biblioteca com vários livros
para devolver, enquanto Helena tomava banho. Findado o banho e com mais nada a
se fazer, Helena ficou sem saber direito para onde ir ou o que fazer. Então num
súbito resolver descer até a sala dos cristais. Sua capa sob as luzes da escola
estava ainda mais feérica e majestosa do que de dia. Os alunos que passavam por
seu caminho ainda a olhavam de soslaio. Uns com medo, uns com desprezo e outros
com curiosidade. Simplesmente ignorou todos.
O destino final de Helena foi à sala dos cristais.
Aquele cômodo a encantara por demais e ficar sentada lá sem fazer nada e
observar o lago pela janela e através dos prédios adjacentes foi uma escolha
ótima. O sol ainda estava iluminando o céu em carmesim com seus últimos raios
de luz e as nuvens vestiram se de nuances rosa e laranja. Chegou a pensar
bastante em como voltar para sua casa, mas as memórias da manhã maravilhosa e
da tarde aventureira não a deixavam pensar em paz. O movimento de alunos era
pouco no local e ficou ainda menor quando souberam que estava por lá.
Caro leitor se acha que já estou acabando
este capítulo, pois narrei como é ser aprendiza de clériga em Ignar, está muito
enganado. O fato que me fez nomear este capítulo ainda está por vir. Chega de
meandros por hora. Apenas narrei estes fatos que acabou de ler porque não posso
ultrapassar o enredo da narração e eles irão ajudar na compreensão de outros
fatos. Mas enfim...
Enquanto Helena ainda brigava com seus
pensamentos olhando pra o panorama da enorme janela do recinto, avistou algo atípico.
Entre um prédio e outro, que ela não sabia quais eram ainda, viu esguichos
d’água jorrar para o alto. Ficou curiosa e foi até a margem do lago para matar
sua curiosidade ferrenha. Após passar pelos prédios de aula chegou à margem do
lago.
Viu um cavalo negro com metade do corpo
para fora da água esguichar água por um espiráculo na testa. A cena foi um
verdadeiro susto, mas como nada foi comum o dia todo... Não foi difícil
acostumar com a visão. O cavalo mergulhou mostrando uma bela cauda de escamosa
e iridescente. Alguns segundos depois o “cavalo-sereia” surgiu do outro lado da
margem a oeste. Helena cerrou os olhos para ver do que se tratava e viu que
havia algo lá bem nos cascalhos na margem.
Correu até lá, pois o cavalo-sereia
parecia inquieto e antes de chegar lá percebeu que havia um rapaz desmaiado à
margem do lago com os pés ainda dentro d’água. Confirmada sua visão, acelerou
mais ainda a corrida até ele. De súbito, ao chegar, ajoelhou ao lado do rapaz.
Estava apenas trajando uma bermuda florida e havia um “strep” em seu pé direito
que segurava um pedaço de prancha de surfe que boiava na água. Seu corpo
atlético e bronzeado estava gélido e imóvel. Os cabelos espetados e loiros
ainda estavam molhados e os lábios largos tinham uma cor pálida e frígida. Na
fronte, sobre a sobrancelha esquerda, uma ferida aberta sangrava e aquilo
deixou Helena ainda mais aflita. Sua mão direita segurava firmemente uma espada
seráfica que reluzia sob os últimos raios de sol. Pôs a mão em seu pescoço e
reparou que havia pouca pulsação. A respiração estava lentíssima e quase
parando. Tentou puxá-lo para tirar os pés da água, mas não teve êxito. O rapaz
era muito pesado para ela.
O desespero só aumentou com o passar dos
segundos. Helena num lampejo lembrou-se da sua aula de manhã. Pensou
rapidamente em alguns versos para abençoar o rapaz embora o nervosismo a
impedisse. Passou as mãos nos cachos até que parassem na nuca com os dedos
cruzados. Respirou fundo e deixou que sua fé a guiasse. Do nada os versos
vieram em sua mente. Acalmou-se e começou a dizê-los pausadamente:
-O ar sopra e vida e irá
soprar. Dentro de você ele irá lhe reanimar.
Foi impossível não ter fé que aquilo iria
dar certo. Alguns segundos depois o rapaz suspirou profundamente e seu tórax
começou a mover-se normalmente quando se respira. Após sua terceira inspiração
cuspiu água e tossiu fortemente. No lago o cavalo-sereia observava tudo com o
olhar vidrado em Helena e o rapaz. Ela correu em direção à escola para procurar
por ajuda, embora estivesse com o coração na mão por deixar o rapaz lá na
margem do rio naquele estado.
Viu a professora Clorin saindo do templo e
indo em direção a biblioteca. Foi muita sorte sua, pois a movimentação de
alunos fora da escola ela praticamente zero. Gritou por ela o máximo que pode
pedindo ajuda. Clorin percebendo que era algo de muito sério também foi em
direção a Helena às pressas.
- O que aconteceu?
–Perguntou Clorin assim que chegou a Helena.
-Um garoto! Na beira do lago!
Vamos rápido! –Berrou Helena com a voz trêmula e agitada. A adrenalina era
tanta em seu corpo que mal conseguia falar e seus membros tremiam copiosamente.
Pegou na mão da professora e a arrastou, literalmente, até o rapaz.
Assim que chegaram, Clorin ajoelhou ao
lado dele e constatou sua hipotermia e baixa ventilação pelo toque em seu
pescoço.
-O que aconteceu? –Perguntou
ela à Helena. –Quem é ele, Helena?
-Eu não sei! –Respondeu
Helena com um nó em sua garganta e lágrimas no canto dos olhos. Eu avistei
aquele cavalo na água e vim pra cá. Quando vi estava ao lado dele e tentei o
reanimar.
Clorin olhou para o lago e viu o
cavalo-sereia observando tudo e não escondeu o espanto ao ver a espada na mão
do rapaz. Enquanto isso Helena contou-lhe que havia o abençoado e tudo mais.
Clorin pediu ajuda a ela e juntas conseguiram tirar os pés do rapaz da água sem
machucá-lo. Ele tremia nitidamente de frio e isso preocupava Helena mais ainda.
Uma empatia tão grande aconteceu naquele momento que ela também sentia um frio
enorme por dentro. O sol já havia se posto mesmo assim a temperatura era
agradável. Entretanto, Helena sentia um frio de arrepiar.
A professora retirou sua capa e colocou
por cima dele como uma manta. Estendeu suas mãos sobre o peito do rapaz e
cochichou algumas palavras estranhas que Helena não reconheceu. Uma onda de
calor envolveu o rapaz fazendo a capa de Clorin liberar delicados fios de vapor
para o ar. Os cabelos dele secaram um pouco e sua face recobrou um pouco de
cor.
-Vá chamar Silvia
rapidamente. Diga a ela para trazer ajuda já que temos um rapaz necessitando de
cuidados médicos aqui. Não se preocupe tanto, o pior já passou. Agora vá e chame
logo Silvia.
Helena saiu em disparada e foi escola
adentro a procura de Silvia. Seus passos eram rápidos e nada precisos. O
primeiro local que pensou em procurar foi na sala dela. E assim o fez. Mas
chegando lá viu que a porta estava trancada e logo desistiu de tentar
procurá-la no local. Os alunos que viam Helena correr de um lado pro outro
ficaram assustados e/ou curiosos e era impossível evitar os comentários. Ainda
assim Helena não desistiu de sua procura. Foi até o salão de jantar porque
deduziu que Silvia estaria cuidando do jantar. E foi exatamente lá que a
encontrou conversando com uma das alunas de alquimia sobre o cardápio da noite
e do lanche já iria ser servido.
-Silvia! Silvia! –Berrou
Helena entrando no salão. –Precisamos de sua ajuda. Há um rapaz desmaiado à
beira do lago. A professora Clorin pediu ajuda médica com urgência.
Helena estava esbaforida e a adrenalina em
seu corpo só aumentava. Silvia num ressalto pegou Helena pela mão, pediu à aluna
que chamasse dois guerreiros até a margem do lago de forma discreta e levou
Helena até sua sala às pressas. No caminho, Helena explicou-lhe tudo o que
havia acontecido e o que fez como clériga. Se não fosse a aula de Clorin sabe-se lá o que teria acontecido com o rapaz.