quinta-feira, 20 de junho de 2013

Capítulo III: Aprendendo a ser clériga


     Enfim Helena e Gabriel chegaram ao pórtico do templo. Lá mesmo a professora responsável recepcionava os alunos com um abraço. O abraço era um pouco diferente do convencional. Sempre que a professora envolvia o aluno com seus braços tocava a nuca dele ou dela com sua mão direita e o aluno também o fazia e desejavam bênçãos.
     Esta é a professora Clorin. É uma mulher jovem, aparenta ter uns vinte oito ou vinte e nove anos. Seu capuz quase sempre está sobre os cabelos longos e ruivos e possui um andar catedrático. Parece até que cada passo seu é mirado no chão de uma forma precisa. O corpo franzino e voz aguda davam-lhe um ar frágil e solitário, entretanto uma paz inenarrável transladava de seus olhos castanhos.
     A fachada do prédio era repleta de estátuas brancas de mármore e símbolos que Helena nunca vira. O pórtico era a única entrada e saída do local que é circular. Havia várias janelas ao derredor dele com vitrais multicoloridos representando cenas da mitologia ignariana. -Que lá é bem real! Enfim. A cúpula do prédio também é composta de vitrais multicoloridos e em seu topo uma pequena esfera prateada orbita ao derredor de uma dourada que tem três vezes mais seu tamanho. Ambas representam o Sol e a Lua e Helena logo percebeu tal simbolismo.
     Ao aproximar-se mais do pórtico e da professora Helena vestiu seu capuz e permitiu que Gabriel tomasse a iniciativa. Clorin o abraçou, mas ele não tocou sua nuca. Apenas a abraçou normalmente. Assim que a professora abraçou Helena, Gabriel por detrás dela gesticulou para que Helena tocasse a nuca dela e assim o fez. Durante o abraço a professora disse “Que o grande Pai lhe aqueça”.
     Ela e Gabriel entraram no templo enquanto a professora cumprimentava os últimos alunos a chegar. O piso do templo é de um mármore tão negro que é possível ver seu reflexo nitidamente nele. No centro do templo há um círculo com diversos símbolos desconhecidos para ela na cor dourada.
     A luminosidade no local é única e fez Helena ficar boquiaberta literalmente falando. Vários fachos de luz com diversas cores cruzavam-se dando um ar místico para cada centímetro cúbico do templo. Os alunos iam sentando-se ao derredor do círculo com suas capas sobre os ombros. Havia mais dois aprendizes de filósofo no local com um bloquinho em mão anotando coisas mil com suas cartolas sobre a cabeça.
     Assim que Helena e Gabriel assentaram ele puxou sua cartola sabe-se lá de onde e a vestiu. Helena ficou curiosa e logo perguntou o porquê do uniforme dos filósofos.
-De certa forma é uma “brincadeira” nossa. -Respondeu Gabriel. –Dizemos que é para não deixar as idéias fugirem de nossa mente, já que são muitas.
     Helena achou a justificativa estranha e ao mesmo tempo engraçada. Mas de certa forma fazia sentido. Finalmente o último aluno chegou e a professora Clorin pode iniciar sua aula. Antes de começar seus ensinamentos esta foi até um canto da sala, pegou uma bolsa semelhante à de Gabriel e a entregou a Helena.
-Começamos há apenas uma semana atrás então você não perdeu muita coisa. Aqui estão todos os materiais básicos que iremos usar este ano. Os demais eu trago durante as aulas para todos os alunos. –Disse a professora Clorin com sua voz aguda.
     Clorin começou sua aula falando um pouco sobre o que já havia lecionado na semana anterior. Era a segunda semana de aula, então Helena não havia perdido nenhum conteúdo de extrema relevância. Enquanto ela falava todos os alunos, com exceção de Helena, Gabriel e os outros dois filósofos, faziam anotações em seus cadernos de uma forma nada convencional. O caderno flutuava próximo ao seu dono com uma pluma escrevendo tudo o que era dito. Helena achou aquilo algo formidável e logo pegou estes itens em sua bolsa.
-Como faço? –Cochichou ela para Gabriel que estava compenetrado em suas anotações.
-Você é uma clériga... Então, apenas acredite com sua fé que irá acontecer.
     “Você faz parecer tão fácil!” Pensou ela. Helena olhou para a pluma branca e o caderno e simplesmente acreditou que eles fossem escrever. Num átimo ambos saltaram de sua mão e ficaram flutuando em sua frente.
-Algum problema, Helena? –Perguntou a professora Clorin docemente. –Qualquer dúvida apenas levante a mão e terei o maior prazer em ajudá-la. Ah! Como pude me esquecer de lhe explicar o básico? Desculpe-me. Leia a palavra em sua mente com sua fé e pronto. Não é tão fácil de primeira, mas...
     Antes mesmo que a professora terminasse suas explicações a pluma de Helena escrevia tudo o que lhe vinha em mente num ritmo frenético. Todos ficaram espantados com a cena e Clorin admirada com o feito de sua nova aluna. Elogios não foram dispensados da parte dela que prosseguiu com a aula. Antes que Gabriel abrisse a boca para perguntar algo Helena cochichou:
-Não me pergunte como o fiz. Apenas fiz.
     Ela riu de soslaio e Gabriel voltou aos seus pensamentos e anotações à mão. O primeiro tema a ser tratado foi o poder das palavras que saem da boca de um clérigo.
-Algum de vocês reparou algo enquanto eu os abraçava? –Perguntou a professora Clorin de uma forma irônica.
     Gabriel rapidamente levantou a mão para responder a pergunta e antes mesmo que sua fala fosse permitida o fez:
-A senhora nos abençoou como se deve fazer um bom clérigo.
-Muito bem Gabriel. Mas vamos com calma, por favor. Quero explicar tudo com bastante calma para que não haja dúvidas quanto a isto. –Falou a professora. – Nós temos a dádiva de abençoar ao próximo e ao mesmo tempo amaldiçoar.
     A animação da turma foi inevitável. Helena estava tão animada que sorria sem parar como se estivesse assistindo a um espetáculo de circo.
-Embora... –Continuou a professora Clorin com suas explicações. –Devemos ter muito cuidado com esta dádiva divina. Nunca, prestem bem atenção, nunca devemos fazer ambas as coisas sem um motivo muito forte para isso! Tudo o que vai, volta.
-Oba. Então abençoarei a todos! –Brincou um dos alunos clérigo.
-Era exatamente neste ponto onde eu queria chegar! –Bradou alegremente a professora Clorin. –Nem sempre funciona assim. Se por um acaso eu amaldiçoar alguém sem um bom motivo ou para minha defesa a maldição volta duas vezes pior para mim. E se eu abençoar alguém com interesse nesta bênção, o contrário me ocorre e duas vezes pior. Entretanto, se verdadeiramente me compadecer de alguém ou realmente quiser o abençoar como gratidão, serei abençoada. Nunca se sabe quando ou por quem, mas é certo de que serás abençoado.
     Todos estavam com os olhos vidrados na professora Clorin e temiam perder uma só palavra do que ela estava dizendo em suas anotações. Helena estava fascinada com tudo aquilo e apenas observava com um largo sorriso nos lábios.
-Há mais um “detalhe” que necessita de muita atenção! –Continuou a professora Clorin. –Jamais se esqueçam do que vou lhes dizer! Quando vamos abençoar estendemos a mão direita em direção ao objeto da ação. Ou o tocamos, assim como o fiz agora a pouco na entrada com todos vocês.
     Um estalo de fleches passou diante dos olhos de Helena. Agora sim ela entendeu o porquê do abraço clerical ser diferente e tão especial. Agora sim fazia sentido o fato de Gabriel não ter posto a mão na nuca da professora Clorin.
-Em última instancia devemos amaldiçoar algo ou alguém! –Advertiu Clorin bem séria. –Uma vez amaldiçoado, sempre amaldiçoado! A não ser que outro clérigo não saiba da maldição lançada e abençoe o amaldiçoado. Assim a maldição é quebrada. Há mais uma condição para que a maldição seja desfeita. Um exemplo: Eu, Clorin, chego até vocês e digo “estou amaldiçoada!” e vocês se compadecem e me abençoam sendo liberta da maldição. Isso não irá funcionar! Eu teria de fazer por merecer a bênção de vocês. Quanto mais detalhados e sucintos forem os seus dizeres no momento da ação, melhor será o efeito desejado.
     Pelas expressões de todos era possível perceber que o conteúdo fora muito bem explicado e que aula fora bastante interessante.
-Caso tenham alguma dúvida não se acanhem e me perguntem. –Admoestou novamente a professora Clorin.
     Ninguém se manifestou sobre e ela partiu para a fase prática da aula. Foi até um canto do salão e pegou um vaso com uma flor murcha e quase morta plantada nele. Pôs o jarro no centro do círculo e chamou um voluntário para abençoar a pobre e moribunda flor. Uma das clériga que estava sentada o mais próximo o possível da professora se candidatou e num pulo de animação levantou-se. A aprendiza foi até o vaso, ergueu a mão sobre ele e disse:
-Desejo sua vitalidade total para que... Para que... –A aprendiza titubeou por alguns instantes e finalmente completou o verso. –Para que volte a forma real.
     Nada aconteceu com a flor. Embora a aprendiza sofresse as conseqüências de sua bênção mal sucedida. Sua aparência de animada passou a ser moribunda. Olheiras pesadíssimas surgiram em seus olhos e bocejar já não era mais uma opção. Seu rosto todo ficou pálido e não conseguia ficar numa posição ereta. Clorin tomou as rédeas da situação e logo impôs a mão direita sobre sua cabeça dizendo:
-Querer não é poder. Que sua aparência volte ao que era ser.
     Imediatamente tudo se resolveu. Todos ficaram estupefatos com a cena e a própria professora Clorin quebrou o silêncio:
-Alguém sabe me dizer por que isto aconteceu? –Gabriel apenas soprou a resposta óbvia para Helena enquanto a professora aguardava a resposta de alguém.
-Ela não o fez de coração sincero. –Soprou Gabriel.
     Clorin percebeu a resposta e apenas assentiu com um sorriso disfarçado para ele e Helena. Naquele momento, Helena também sussurrou palavras ao vento, mas com um objetivo específico. Porém com sua mão discretamente apontada para a flor sem que nem ao menos Gabriel percebesse tal ato.
-Meus olhos alegres ficam ao te olhar. Suas cores vivas voltam a me encantar. –Soprou Helena.
     De súbito a flor ficou ereta e suas pétalas mórbidas tornaram-se vívidas. Os olhos de Helena brilharam de alegria e Gabriel só então percebeu o feito de sua nova amiga. Todos os alunos entre olharam-se à procura do ou da responsável pela bênção. Clorin olhou diretamente para Helena e assentiram com a cabeça discretamente como se fosse um sinal de parabéns.
-Minha cara, sua animação ao fazer a bênção foi tanta que deixou a compaixão de lado e o ego subiu-lhe à cabeça. –Advertiu Clorin com o máximo de cautela o possível para não desestimular a aluna.
     Naquele momento o sino da torre do relógio soou indicando o horário do intervalo. A professora despediu seus alunos pedindo que a encontrassem na beira do lago para dar continuidade à aula. Gabriel e Helena saíram logo após guardarem seus materiais e pegarem as frutas que Gabriel havia pegado na noite passada. Foram até o Jardim frontal da escola e sentaram em um dos bancos de concreto para aproveitar o lanche.
     O clima estava agradável e bem cálido. As últimas gotículas de orvalho reluziam os raios solares e as flores pareciam dançar conforme a música dos pássaros que por ali voavam de um galho a outro. As fontes jorravam água fazendo pequenos arco-íris surgirem em suas bacias e os pássaros banharem-se. Não havia tantos alunos pelo jardim durante aquele horário. A maioria deles ficava à beira do lago papeando e fazendo essas coisas de colegiais.
     Logo retornaram para suas devidas classes ao ouvirem o sino de Trumptom badalar. A aula clerical prosseguiu com Clorin fazendo mais ponderações sobre o tema que já havia lecionado antes do intervalo. Os grandes olhos de Helena permaneciam atentos a cada movimento da professora e sua pluma escrevia num verdadeiro frenesi de animação. Gabriel também não ficava atrás.
     Findada a aula, Clorin despediu-se de todos e ficou no templo para organizar alguns itens que levara para a aula. Helena estava tão animada que seu coração batia mais rápido e um largo sorriso não lhe saía dos lábios. Gabriel ficou tão feliz quanto ela, afinal era sua única companhia naquela enorme escola. Um calor de meio-dia tomou conta do local e as águas azuladas do lago tornaram-se convidativas. Juntando este fator com um céu límpido e um Sol radiante, a vontade de mergulhar tornou-se ainda mais incontrolável.
     Clorin não havia marcado nenhuma atividade extra naquela tarde. Sendo assim, Helena estava livre de compromissos e combinou de visitar o professor Henry junta de Gabriel. Ele tinha de levar seu ovo de grifo para um “check-up” geral e aproveitou a chance para mostrar o resto do terreno da escola. Enfim almoçaram e descansaram um pouco para evitar problemas digestivos. Foram até o quarto e pegaram o que iriam precisar. Gabriel pegou o ovo, e Helena aconselhada por ele, pegou seu casulo de fada.
     Finalmente desceram para o lago e foram mata à dentro com Gabriel como guia.
-Grande parte da floresta pertence à escola. -Disse Gabriel puxando assunto logo para que a caminhada não ficasse tão longa. –Há uma sebe mais à frente que delimita esta posse. E um pouco mais à frente mora o professor Henry. Ele é o filósofo de Trumptom.
     Gabriel desviou seu passo de um galho que estava caído na trilha em que seguiam e disse para Helena tomar cuidado onde pisa.
-Nossa! Que estranho alguém morar no meio de uma floresta assim.
-Henry é um observador da natureza. Toda a sua filosofia é voltada para os seres vivos e por isso mora por aqui. Já catalogou inúmeras espécies no local pretende continuar assim por um bom tempo.
     Helena tinha motivos de sobra para dizer aquilo. As árvores eram imensas e poucos fachos de luz solar atravessavam por suas copas. A todo instante era possível ouvir o som de algum ser se movendo na floresta. Alguns insetos bem estranhos voavam de um lado para o outro e volta e meia se deparavam com um fruto. O tapete natural invadia a trilha uma vez ou outra pelo caminho, mas Gabriel sabia muito bem por onde estava indo. Helena sentia um cheiro agradável e úmido no ar. Sei que água é inodora, mas quando estamos nos aproximando de uma cascata é impossível não sentir aquele ar maravilhoso. E foi isso que ela Captou com suas narinas.
     Logo chegaram à sebe. Não era muito alta embora fosse muito espessa. Havia uma pequena portinhola no caminho da trilha e foi por ela que passaram. A presença de água tornou-se ainda mais perceptível e Helena logo perguntou a Gabriel se havia um rio ou algo do tipo próximo a eles.
-Há o rio Fluxia aqui perto. É um ótimo lugar para se pescar. Embora tenha que pedir permissão para a elementar de lá. Ela é bem simpática e deixa que pesquem à vontade quase sempre, contanto que não façam bagunça em sua casa.
     Helena não sabia muito bem o que são elementares. Apesar de Clorin ter falado deles rapidamente Helena ainda não havia conseguido associar uma imagem certa do que são. Ela apenas sabia que eles controlavam forças da natureza e que são divindades presentes. Ou seja, estão em Ignar e podem ser visualizadas da forma como queiram se apresentar a seus observadores. Os clérigos conseguem enxergar com muita facilidade os elementares. Por mais que eles se escondam das outras castas, os clérigos sempre irão poder vê-los. Novamente Helena questionou Gabriel sobre elementares. E foi esta explicação que ele a deu.
     Depois de cinco minutos de caminhada chegaram à casa do professor Henry. Quero dizer, à cabana. Ficava situada numa clareira bem ampla e tinha uma pequena horta à direita, um pomar à esquerda e seu teto estava revestido de ervas. Tinha um quarto no andar de cima com uma pequena sacada e dela dava tranquilamente para colher as ervas do teto. E era lá que estava o professor Henry. A pequena chaminé estava empoeirada e com musgo crescendo na borda. Aparentava não ter sido usada há muito tempo.
     Henry percebeu de imediato a chegada dos dois alunos e acenou para ambos e logo os convidou para entrar. Gabriel respondeu com um aceno enquanto segurava o ovo de grifo com a outra mão. Henry entrou em seu quarto e pouco antes de Helena e Gabriel chegarem já estava na porta os aguardando enquanto limpava as mãos sujas de terra no avental de jardinagem que trajava. É jovem e deve ter uns vinte e sete ou vinte oito anos de idade. Os cabelos negros são muito cacheados e, volta e meia, algum cacho caia sobre sua testa. É alto e esguio com mão muito grande embora delicado. Helena logo o percebeu, pois a horta e pomar são muito bem organizados e cuidados.
-Que o grande Pai vos ilumine. –Cumprimentou Henry simpaticamente. Espero que Asas esteja bem.
     Gabriel apertou a mão do professor e Helena também o fez. Henry tem um cheiro agradável de madeira misturado com folhas e terra molhada. Helena logo no início incomodou-se um pouco, porém acostumou-se rapidamente e começou a apreciar o olor da floresta que dele exalava. A cabana parecia pertencer a um duende ou outro ser do tipo, tamanha era sua ligação com a natureza. Adentraram-na com o professor à frente. A porta de entrada dá acesso à sala da cabana. Atrás da sala há a cozinha e à esquerda da sala há uma biblioteca/laboratório. Gabriel como já estava muito bem situado com o local, apesar de sua única semana em Ignar, logo foi para este cômodo.
     Helena apenas os seguia e foi impossível não reparar na decoração do local. Artesanatos se espalhavam por todo o local deixavam o ambiente muito aconchegante. A mobilha é simples mas de bom gosto. As janelas estavam escancaradas e a luz cálida do sol invadia o local. Automaticamente ela lembrou-se de sua casa e seu avô e avó. Quando será que esta loucura toda irá acabar? Pensou consigo mesma. Porém rapidamente esta pergunta foi respondida, ou melhor, esquecida graças a Gabriel:
-Helena, onde está seu casulo de fada?
     Rapidamente Helena puxou o casulinho de dentro de sua camisa e o tirou com todo o cuidado do pescoço. Ela o entregou a Gabriel que o entregou ao professor Henry. Já estavam dentro do laboratório quando isto aconteceu. Há uma grande mesa de madeira bem grande no centro do recinto e muitos frascos com amostras de folhas, flores, unhas, penas e qualquer outro material orgânico que possa ser estado. Tudo estava muito bem etiquetado e apesar da aparente bagunça, Henry sabia muito bem onde estava o que ele quisesse. Livros tomavam conta das prateleiras nas paredes do local. A Única janela estava meio aberta apenas para ventilar o local, e uma lâmpada dava conta de iluminar tudo muito bem.
     Helena ficou se perguntando como havia eletricidade naquele lugar e desistiu de tentar adivinhar logo depois da primeira teoria. Gabriel colocou o ovo sobre a mesa num suporte de madeira que encaixava perfeitamente na sua base. Henry ficou segurando o envoltório muito surpreso e animado com ele.
-Gabriel, vá pegar dois bancos na cozinha para vocês dois. A caminhada até aqui não é nada curta. Então você é a famosa Helena? -Falou ele olhando com seus olhos curiosos e simpáticos para Helena.
-A Helena sou eu sim, mas a parte da famosa eu já não sei. –Respondeu Helena sorrindo e correspondendo a simpatia do docente.
-Como assim? Você é o assunto mais comentado em Trumptom desde ontem e hoje de manhã também. Enfim, minha cara. Será que você pode me contar como conseguiu esta crisálida? Não é todo dia que alguém consegue uma. Pra falar a verdade há muito tempo não vejo uma dessas. E quando vi à primeira vez na minha infância estava vazia.
     Enquanto Henry falava procurava algo em uma das gavetas de uma das bancadas que por ali há.
-Eu ganhei este casulo das fadas que me ajudaram ontem à noite...
     A partir daí Helena começou a contar tudo o que lhe acontecera até finalmente chegar a Trumptom. Como você já leu esta parte vou poupar-lhe das redundâncias.
-Que interessante isto!- Henry havia encontrado um óculo com uma lente super potente e estava observando atentamente o casulo. -Fadas são muito dóceis e não tem contato com humanos tão facilmente. Jamais encontrei um caso nos livros e na vida que narrasse uma história dessas. Não estou duvidando de você, pois conseguir um casulo desses é quase impossível. Ainda mais com o seu conteúdo!
     Henry ficava mais animado a cada piscadela que dava no casulo. Gabriel entrou no local com dois banquinhos de madeira e os posicionou próximos a mesa. Enquanto ele e Helena sentavam-se foi logo falando:
-E então? Nasce quando?
-Não sei dizer ao certo. Nunca estudei antes fadas como estou estudando agora. Entendo como fazem seus casulos, quanto tempo tem em média vivem na fase adulta, mas no período de formação na crisálida não faço a mínima idéia. Pode ser que a qualquer momento rompa o casulo, ou também que demore semanas.
     Henry devolveu cuidadosamente o casulo a sua dona e a parabenizou de novo por seu presente exuberantemente raro. Em seguida começou a examinar o ovo de Gabriel.
-Acho que falta uns cinco ou seis dias pra que ele nasça. Seria melhor você deixá-lo aqui comigo pra evitar qualquer surpresa desagradável. Quem sabe no meio da noite Asas rompe a casca e você vai ter que trazê-lo aqui altas horas. Não vai ser nada bom.
     Gabriel concordou que o ovo ficasse com Henry. Confiava plenamente em seu tutor sem a menor sombra de dúvidas. Helena o perguntou como Gabriel ganhou o ovo e obteve sua resposta.
-Eu o encontrei aqui na floresta logo que cheguei. Como eu lhe disse, cheguei à biblioteca de Trumptom e após receber a assistência de Silvia e os demais docentes eu resolvi andar por ai pra espairecer. Acabei me embrenhando pela mata e no caminho encontrei Asas. Foi então que o professor Henry me encontrou.
     A partir deste ponto a conversa desandou entre Henry e Gabriel. Helena quase não falava, e, quando o fazia geralmente estava perguntando algo. Conversaram sobre plantas, flores e seres da floresta que volta e meia surgem nos limiares de Trumptom. Professor Henry implorou para que Helena o invólucro de sua fada assim que ela nascesse. Ela concordou sem nenhum contraponto.
     Quando Henry reparou as horas já havia passa das quatro e da tarde e com muita pressa mandou que Helena e Gabriel voltassem para Trumptom rapidamente. Afinal, quando o sol se fosse ficaria inviável voltar para a escola pela trilha e ela é o único caminho até a escola. Helena colocou seu capuz sobre a cabeça, pois queria se sentir imponente novamente e isto lhe fez um bem tremendo. Novamente sentiu algo muito bom quando o fez. Despediram-se muito rapidamente do professor e voltaram para a trilha. Estorvaram o passo e conseguiram chegar a tempo na escola. Pouco antes do lanche na verdade.
     Ambos estavam um pouco ofegantes e ansiavam logo por alguma refeição. Distraíram-se tanto que esqueceram completamente da hora, mas chegaram, e era isso o que importava. Comeram até saciar a fome por completo e Gabriel recolheu algumas frutas nos bolsos da calça e levou para o quarto. Ele desceu para ir à biblioteca com vários livros para devolver, enquanto Helena tomava banho. Findado o banho e com mais nada a se fazer, Helena ficou sem saber direito para onde ir ou o que fazer. Então num súbito resolver descer até a sala dos cristais. Sua capa sob as luzes da escola estava ainda mais feérica e majestosa do que de dia. Os alunos que passavam por seu caminho ainda a olhavam de soslaio. Uns com medo, uns com desprezo e outros com curiosidade. Simplesmente ignorou todos.
     O destino final de Helena foi à sala dos cristais. Aquele cômodo a encantara por demais e ficar sentada lá sem fazer nada e observar o lago pela janela e através dos prédios adjacentes foi uma escolha ótima. O sol ainda estava iluminando o céu em carmesim com seus últimos raios de luz e as nuvens vestiram se de nuances rosa e laranja. Chegou a pensar bastante em como voltar para sua casa, mas as memórias da manhã maravilhosa e da tarde aventureira não a deixavam pensar em paz. O movimento de alunos era pouco no local e ficou ainda menor quando souberam que estava por lá.
     Caro leitor se acha que já estou acabando este capítulo, pois narrei como é ser aprendiza de clériga em Ignar, está muito enganado. O fato que me fez nomear este capítulo ainda está por vir. Chega de meandros por hora. Apenas narrei estes fatos que acabou de ler porque não posso ultrapassar o enredo da narração e eles irão ajudar na compreensão de outros fatos. Mas enfim...
     Enquanto Helena ainda brigava com seus pensamentos olhando pra o panorama da enorme janela do recinto, avistou algo atípico. Entre um prédio e outro, que ela não sabia quais eram ainda, viu esguichos d’água jorrar para o alto. Ficou curiosa e foi até a margem do lago para matar sua curiosidade ferrenha. Após passar pelos prédios de aula chegou à margem do lago.
     Viu um cavalo negro com metade do corpo para fora da água esguichar água por um espiráculo na testa. A cena foi um verdadeiro susto, mas como nada foi comum o dia todo... Não foi difícil acostumar com a visão. O cavalo mergulhou mostrando uma bela cauda de escamosa e iridescente. Alguns segundos depois o “cavalo-sereia” surgiu do outro lado da margem a oeste. Helena cerrou os olhos para ver do que se tratava e viu que havia algo lá bem nos cascalhos na margem.
     Correu até lá, pois o cavalo-sereia parecia inquieto e antes de chegar lá percebeu que havia um rapaz desmaiado à margem do lago com os pés ainda dentro d’água. Confirmada sua visão, acelerou mais ainda a corrida até ele. De súbito, ao chegar, ajoelhou ao lado do rapaz. Estava apenas trajando uma bermuda florida e havia um “strep” em seu pé direito que segurava um pedaço de prancha de surfe que boiava na água. Seu corpo atlético e bronzeado estava gélido e imóvel. Os cabelos espetados e loiros ainda estavam molhados e os lábios largos tinham uma cor pálida e frígida. Na fronte, sobre a sobrancelha esquerda, uma ferida aberta sangrava e aquilo deixou Helena ainda mais aflita. Sua mão direita segurava firmemente uma espada seráfica que reluzia sob os últimos raios de sol. Pôs a mão em seu pescoço e reparou que havia pouca pulsação. A respiração estava lentíssima e quase parando. Tentou puxá-lo para tirar os pés da água, mas não teve êxito. O rapaz era muito pesado para ela.
     O desespero só aumentou com o passar dos segundos. Helena num lampejo lembrou-se da sua aula de manhã. Pensou rapidamente em alguns versos para abençoar o rapaz embora o nervosismo a impedisse. Passou as mãos nos cachos até que parassem na nuca com os dedos cruzados. Respirou fundo e deixou que sua fé a guiasse. Do nada os versos vieram em sua mente. Acalmou-se e começou a dizê-los pausadamente:
-O ar sopra e vida e irá soprar. Dentro de você ele irá lhe reanimar.
     Foi impossível não ter fé que aquilo iria dar certo. Alguns segundos depois o rapaz suspirou profundamente e seu tórax começou a mover-se normalmente quando se respira. Após sua terceira inspiração cuspiu água e tossiu fortemente. No lago o cavalo-sereia observava tudo com o olhar vidrado em Helena e o rapaz. Ela correu em direção à escola para procurar por ajuda, embora estivesse com o coração na mão por deixar o rapaz lá na margem do rio naquele estado.
     Viu a professora Clorin saindo do templo e indo em direção a biblioteca. Foi muita sorte sua, pois a movimentação de alunos fora da escola ela praticamente zero. Gritou por ela o máximo que pode pedindo ajuda. Clorin percebendo que era algo de muito sério também foi em direção a Helena às pressas.
- O que aconteceu? –Perguntou Clorin assim que chegou a Helena.
-Um garoto! Na beira do lago! Vamos rápido! –Berrou Helena com a voz trêmula e agitada. A adrenalina era tanta em seu corpo que mal conseguia falar e seus membros tremiam copiosamente. Pegou na mão da professora e a arrastou, literalmente, até o rapaz.
     Assim que chegaram, Clorin ajoelhou ao lado dele e constatou sua hipotermia e baixa ventilação pelo toque em seu pescoço.
-O que aconteceu? –Perguntou ela à Helena. –Quem é ele, Helena?
-Eu não sei! –Respondeu Helena com um nó em sua garganta e lágrimas no canto dos olhos. Eu avistei aquele cavalo na água e vim pra cá. Quando vi estava ao lado dele e tentei o reanimar.
     Clorin olhou para o lago e viu o cavalo-sereia observando tudo e não escondeu o espanto ao ver a espada na mão do rapaz. Enquanto isso Helena contou-lhe que havia o abençoado e tudo mais. Clorin pediu ajuda a ela e juntas conseguiram tirar os pés do rapaz da água sem machucá-lo. Ele tremia nitidamente de frio e isso preocupava Helena mais ainda. Uma empatia tão grande aconteceu naquele momento que ela também sentia um frio enorme por dentro. O sol já havia se posto mesmo assim a temperatura era agradável. Entretanto, Helena sentia um frio de arrepiar.
     A professora retirou sua capa e colocou por cima dele como uma manta. Estendeu suas mãos sobre o peito do rapaz e cochichou algumas palavras estranhas que Helena não reconheceu. Uma onda de calor envolveu o rapaz fazendo a capa de Clorin liberar delicados fios de vapor para o ar. Os cabelos dele secaram um pouco e sua face recobrou um pouco de cor.
-Vá chamar Silvia rapidamente. Diga a ela para trazer ajuda já que temos um rapaz necessitando de cuidados médicos aqui. Não se preocupe tanto, o pior já passou. Agora vá e chame logo Silvia.
     Helena saiu em disparada e foi escola adentro a procura de Silvia. Seus passos eram rápidos e nada precisos. O primeiro local que pensou em procurar foi na sala dela. E assim o fez. Mas chegando lá viu que a porta estava trancada e logo desistiu de tentar procurá-la no local. Os alunos que viam Helena correr de um lado pro outro ficaram assustados e/ou curiosos e era impossível evitar os comentários. Ainda assim Helena não desistiu de sua procura. Foi até o salão de jantar porque deduziu que Silvia estaria cuidando do jantar. E foi exatamente lá que a encontrou conversando com uma das alunas de alquimia sobre o cardápio da noite e do lanche já iria ser servido.
-Silvia! Silvia! –Berrou Helena entrando no salão. –Precisamos de sua ajuda. Há um rapaz desmaiado à beira do lago. A professora Clorin pediu ajuda médica com urgência.

     Helena estava esbaforida e a adrenalina em seu corpo só aumentava. Silvia num ressalto pegou Helena pela mão, pediu à aluna que chamasse dois guerreiros até a margem do lago de forma discreta e levou Helena até sua sala às pressas. No caminho, Helena explicou-lhe tudo o que havia acontecido e o que fez como clériga. Se não fosse a aula de Clorin sabe-se lá o que teria acontecido com o rapaz.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Capítulo II: Entre o caos novas amizades surgem

     Quando Helena deu por si e pôs as idéias no lugar (Pelo menos o quanto lhe foi possível), se viu numa sala cálida e bem aconchegante. Lembrou-se apenas de ter subido um lance de escada. O estilo neoclássico de decoração mantinha-se em evidência. Embora houvesse uma escrivaninha de frente a janela principal e alguns canapés ao derredor de uma mesinha de centro. Pairava no ar uma atmosfera receptiva e luxuosa.
-Sente-se aqui, minha querida. -Disse a doce senhora enquanto guiava Helena para um dos canapés. –Primeiramente precisamos nos conhecer. Eu me chamo Silvia e sou diretora desta enorme escola, Trumptom. Qual o seu nome?
-He-lena. –Soluçou ela ainda recuperando a razão depois de todo o constrangimento. Preciso muito da sua ajuda...
-Tenha calma, Helena. –Interrompeu Silvia percebendo a agitação e desespero na voz de Helena. –Primeiro você precisa de um bom e relaxante banho, roupas novas e uma bela xícara de chá para pôr as idéias em seu devido lugar.
     Helena apenas assentiu porque não havia mais nada a se fazer naquele momento. Ao lado da janela principal, por detrás da escrivaninha havia uma escada caracol e foi por ela que ambas chegaram a um quarto muito simples, porém aconchegante e perfumado. Era possível encontrar frascos com perfumes e afins sobre todos os móveis do local. Ao lado da cama havia um criado-mudo com um pequeno abajur no qual os desenhos em seu chapéu moviam-se. Tratava-se de um campo florido com pássaros e borboletas voando sobre ele. Uma porta também decorada dava acesso a um banheiro também simples. Silvia a guiou até ele dizendo:
-Há um roupão que você pode vestir enquanto providencio roupas novas. Fique à vontade para banhar-se. Assim que terminar desça e vamos conversar.
     Helena adentrou o banheiro e fechou a porta. Ficou receosa e trancou a porta. Feito isso ela apoiou as costas nela e deslizou até sentar-se enquanto dizia:
-Onde é que eu vim parar?!
     No local havia uma pia com torneira e um vaso sanitário (É claro!), um box de vidro, um espelho sobre a pia e um roupão dependurado por um gancho próximo ao box. Helena tirou sua roupa e entrou no box. Ao lado do chuveiro havia uma pequena prateleira com os mais variados sabonetes, xampus e afins. Helena deixou seu espelho sobre a pia e tirou seu pingente de fada do pescoço. Em seguida ela apenas ligou o chuveiro e deixou a água cair sobre si levando embora suas preocupações e impurezas. Até conseguiu relaxar um pouco.
     Findado o banho, Helena vestiu o roupão secou os cabelos na medida do possível com uma toalha que por ali estava e desceu pela escada caracol. Silvia estava sentada em um dos canapés com o garoto que havia esbarrado nela há pouco. Na mesinha de centro uma bandeja com chá e biscoitos estava a sua espera. O desastrado aluno parecia estar constrangido com a situação e sua cabeça baixa o denunciava.
     Sua pele é morena e os olhos castanhos bem escuros, quase pretos. O cabelo extremamente escorrido e cortado em cuia o fazia parecer um perfeito índio. Não parava de balançar os pés e estalar os dedos mesmo sem produzir nenhum estalo.
-Gabriel veio desculpar-se com você, minha querida. –Disse Silvia gentilmente quebrando o silêncio. Gabriel, esta é Helena.
     Ainda constrangido ele levantou-se e num aperto de mão bem desengonçado a cumprimentou. Helena retribuiu com um leve sorriso.
-Peço desculpas por ter lhe assustado.
     Helena achou o jeito um tanto quanto foral dele engraçado e apenas o desculpou sorrindo graciosamente. Silvia serviu chá para ambos e a si própria também. Helena nunca antes havia sentido o aroma tão forte e gostoso de um chá como aquele.
-Fiquem bem á vontade, meus queridos. –Disse Silvia após servi-los. –Então, conte-me o que aconteceu Helena.
     Helena levou a xícara até sua boca, bebeu um cálido e delicioso gole de chá e começou a falar o seguinte:
-Não sei nem por onde começar a história. Tudo foi tão rápido que ainda nem acredito direito no que aconteceu.
-Tente começar pelo começo, Helena. –Aconselhou Silvia com um sorriso acolhedor no rosto e os olhos violeta bem atentos em Helena.
-Bem... –Começou Helena de uma forma bem desajeitada. -Tudo começou quando encontrei este espelho na praia e...
     Helena mostrou o espelho a Silvia que não escondeu a surpresa por vê-lo.
-Posso segurá-lo um pouco? –Pediu Silvia interrompendo Helena com as mãos esticadas.
     Helena passou o objeto para as mãos de Silvia que se maravilhou. Era visível em seus olhos a contemplação por segurar o espelho. Ela observou cada detalhe dele, cada linha, cada curva, cada milímetro. Gabriel só o fitou discretamente enquanto bebia um gole de chá.
-Depois que o encontrei fui parar numa floresta escura e tenebrosa. –Continuou Helena. –Lá umas fadas bem simpáticas me ajudaram a encontrar o caminho até aqui e me deram isto.
     Helena mostrou o seu presentinho para Silvia que o observou misteriosamente por alguns segundos. Logo em seguida ela respondeu com uma pergunta:
-Onde você morava, me desculpe, mora?
-Em Pernambuco. Porque a pergunta? Há algo de errado nisso?
-Como você deve ter percebido minha querida, aqui já não é mais o seu mundo. Pelo visto você não faz a mínima ideia de onde esteja. –Silvia bebeu um gole bem curto de chá e continuou o seu discurso. –Este espelho é um artefato muito poderoso aqui em Ignar e foi ele que lhe trouxe até aqui. E sinto em lhe informar que não conheço nenhuma maneira de fazê-los voltar aos seus lares. Gabriel também veio do mesmo mundo que você há uma semana e se instalou aqui na escola como um de meus alunos. Caso queira ficar tenho a lhe oferecer um abrigo, vestes, alimentação e a melhor educação de toda a Ignar. Sinto em não poder fazer muito por vocês.
     Helena olhou para Gabriel que torceu a boca um pouco para a direita com se quisesse dizer “não há alternativa” e baixou a cabeça deixando os cachos ainda molhados lhe cobrir o rosto. Uma sensação de impotência apossou-se de Helena que apenas deixou uma lágrima rolar por seu rosto e aceitou a oferta de Silvia.
-Há um único probleminha que também não posso resolver. –Disse Silvia. –Todos os quartos estão ocupados, pois não esperávamos alunos “vindos de outras terras”. –Silvia esforçou-se o máximo que pode para não fazer com que a expressão soasse tão estranha, mas não adiantou muito. –A única alternativa que tenho é que você, Gabriel, divida seu quarto com ela. Infelizmente o único quarto reserva que tenho vago é este e as duplas de rapazes e moças são em uma quantidade exata. Não há como deslocar outros alunos. Algum problema para você, Gabriel?
-Não, não. Será muito bom dividir o quarto com alguém que também não é ignariano.
     Um silêncio constrangedor pairou no local e ficou lá por uns três, quatro segundos. Novamente Silvia tomou a palavra:
-Gabriel, meu querido, avise ao professor Henry que leve as roupas de Helena para o seu quarto. Daqui a pouco Helena pode se encontrar com você lá. Ela vai precisar de alguém que a guie pela escola e você está mais do que apto para o cargo.
     Ele bebeu um último gole de chá e pegou um biscoitinho antes de se levantar e sair da sala. Alguns segundos depois Silvia levantou-se, trancou a porta e voltou a falar com Helena.
-Helena este espelho é muito especial e não pode cair em mãos erradas. Ele agora é seu e você precisa tomar conta dele. Não o mostre para mais ninguém sem me consultar antes. Somente seus professores podem saber da existência deste objeto e mais ninguém.
     Silvia devolveu o espelho a Helena, que assentiu com um leve balançar de cabeça e foi guiada por Silvia até a porta. Após destrancar a porta, ambas foram até o quarto onde Helena se hospedaria. Silvia foi guiando-a enquanto confortava Helena com suas palavras.
-Não se preocupe com sua vida em sua terra minha querida. O tempo em Ignar não obedece ao tempo dos outros planetas no Cosmos. E no decorrer dele, irá perceber que aqui é o melhor lugar para se estar.
     O corredor no qual passaram era repleto de salas de aula e no seu fim há uma escada larga e suntuosa que leva a um andar de quartos. Poucos alunos cruzaram com elas duas e nem ousaram fazer um comentário se quer sobre Helena e suas vestes de banho. O quarto dela e de Gabriel era o último no corredor. Este é forrado com um carpete negro e as paredes azuis. Assim que chegaram à última porta, Silvia bateu nela e a abriu. O quarto estava vazio, mas com as luzes acesas.
     Duas camas à direita são paralelas uma a outra. E um criado mudo com abajur em cima dele ao lado de cada cama. De frente ás duas há um pequeno guarda-roupa e uma porta no fundo do quarto que dá acesso ao banheiro. O quarto deve ter não mais que uns dez metros de comprimento por uns seis de largura. E na parede dos fundos há uma porta dupla com uma cortina impedindo a visão da paisagem.
     Em cima da primeira cama estavam livros e mais livros e um ovo dourado enorme que parecia ter sido posto por um avestruz dourado. Silvia deu um empurrãozinho em Helena para que ela adentrasse o quarto e disse:
-Sinta-se em casa, minha querida. Gabriel deve aparecer por aqui daqui a pouco. Amanhã mesmo você pode começar as aulas.
     Helena agradeceu e despediu-se de Silvia com um sorriso antes dela sair e fechar a porta. Helena sentou-se na cama desocupada e próxima a janela, pôs o espelho e o seu presentinho em cima do criado mudo.. Jogou-se para trás com os braços abertos enquanto fazia um muxoxo. Em sua mente passavam mil teorias de como aquilo poderia ter ocorrido. Ir parar em outro mundo através de um espelho ganhar um presente de uma fada e matricular-se em uma escola de sabe-se lá o que não é pouca coisa para uma noite só. Um problema a menos ela tinha que era preocupar-se com sua família. De cara confiou em Silvia e encontrou um porto seguro nela.
     Nas palavras lidas por ela nos livros de sua casa ela encontrou certa forma de encarar aquilo tudo como uma experiência boa e insana. “Por que não?” Perguntou-se. Em seu coração uma força pulsava ao máximo fazendo com que ela se sentisse segura e em casa. Era sua fé lhe dizendo que tudo iria dar certo. Depois que mais mil teorias ribombaram em sua mente Gabriel chegou com roupas dobradas em mão e algumas frutas num saquinho de papel.
     Helena o ajudou pegando as roupas e pondo em cima de sua nova cama. Uma peça de roupa em especial lhe chamou a atenção: Uma capa de seda branca com capuz. Pediu licença a Gabriel e foi para o banheiro para finalmente vestir-se. O banheiro é realmente muito simples. Um chuveiro, uma pia, uma vaso sanitário, um espelho na porta de um pequeno armário acima da pia e um cesto de roupas sujas. Deve ter uns três metros quadrados.
     Helena vestiu um pijama bem confortável e comportado. Preferiu permanecer descalça, penteou os cabelos e os prendeu num rabo de cavalo com uma presilha que veio junto às roupas. Saiu do banheiro e agradeceu a Gabriel pela ajuda. Ele estava sentado em sua cama estouvada enquanto lia um dos livros que lá estava. Ele retribuiu o agradecimento e disse:
-Então, seja bem-vinda! –Helena pegou sua capa de seda e ficou sentada na cama esperando com que ele logo puxasse mais assunto. –Novamente tenho que pedir desculpas. Eu realmente estava muito distraído quando esbarrei em você.
-Sem problemas. –Respondeu ela. –Por um acaso estamos em época de prova?
-Ah, não! –Respondeu Gabriel meio sem graça com os livros sobre a cama. –Isto aqui é só para passar o tempo enquanto o sono não vem. Gosto de ler de um tudo e geralmente vario muito de assunto. Por isso os livros. Mas não precisa se preocupar porque o ano letivo aqui em Trumptom começou há duas semanas e as provas são práticas de acordo com seu ofício.
     Helena olhou curiosa para Gabriel, pois mais dúvidas surgiram em sua cabeça. Como assim ofícios?
-Vou precisar que você me explique tudo da forma mais fácil que há. Literalmente estou perdida!
-Entendo. Meu primeiro dia aqui foi bem confuso também. Mas enfim... Ignar é o mundo onde estamos e não se surpreenda com qualquer “surrealidade” que ver. Há seis classes de ofício aqui. E são elas: Filósofos, clérigos, alquimistas, guerreiros, artesãos e artistas. Cada uma delas possuiu uma característica bem visível e o estilo de vida delas tem muito a ver com esta característica. Por exemplo, nós os filósofos somos estudiosos. Ler copiosamente para nós é algo comum e escrever também. Estudamos de tudo! Pelo visto você é clériga já que recebeu uma capa. Só eles utilizam essa vestimenta, que por um acaso é seu uniforme. Com certeza você tem uma fé bem atenuante!
-De certa forma sim... Nunca fui religiosa, mas... Sim. Tenho fé em tudo o que costumo fazer. E já que tenho esta capa eu acho que sou uma artista, certo?
     Gabriel e ela riram por alguns minutos com a piada ridícula, mas que pareceu a mais engraçada do mundo, ou melhor, de Ignar, naquele momento.
-De onde você veio, Gabriel? Sou de Pernambuco, como você já sabe. E pelo jeito você também é brasileiro.
-Sou sim. Mais precisamente do Amazonas. Meus olhos azuis e cabelos loiros nem me entregaram, não é mesmo?
     Novamente caíram na gargalhada. Logo em seguida Gabriel explicou-lhe toda a rotina da escola:
-Todos os dias, exceto no domingo, a rotina é a mesma na escola, Helena: Acordamos por volta das seis horas. O café-da-manhã é servido no salão em que nos conhecemos às sete e quinze. Todas as refeições são servidas lá. Oito horas começam as aulas que vão até o meio dia. Há um intervalo das dez até dez e meia para lancharmos algo. O almoço é servido uma hora da tarde e às duas horas, quando há, começam as atividades práticas dos alunos ou extracurriculares.  Variam muito de horário, mas não passam das cinco horas. Depois disso tudo, estamos livres para aproveitar de tudo o que Trumptom tem a oferecer. Aconselho você a levar um lanchinho nas atividades de campo, pois geralmente os professores não retornam à escola para lancharem de tarde. O jantar é servido às sete horas e depois disso as frutas são liberadas para que possamos comer nos quartos quando der fome. O toque de recolher é as dez e meia e depois dele não podemos transitar no prédio. Silvia faz questão de que todos estejam presentes nas três refeições principais.
-Com toda a certeza vou precisar de sua ajuda como guia aqui. A escola é enorme!
-Não se preocupe. Os aprendizes de filósofo podem participar de qualquer aula de segunda à quinta para compartilharem suas observações com a turma na sexta. Amanhã posso ir contigo para sua aula. Depois disso lhe apresento o resto da escola.
-Você faz parecer tão fácil transitar por aqui. Este lugar é imenso! Acho que vou precisar mais do que um dia dos seus serviços de guia. –Gabriel sorriu como uma forma de assentimento. –Outra coisa me incomoda... Como são os alunos daqui?
-Abstraia. Apenas abstraia. –Respondeu Gabriel novamente torcendo o canto da boca como desaprovação. Desde que cheguei aqui nenhum deles falou comigo e quando falam é para fazer brincadeiras muito sem graça. Também cheguei aqui de uma forma nada prazerosa.
-E como foi? Você sabe muito sobre mim, mas não sei nada sobre você... Bem, quase nada.
     Gabriel levantou-se e pegou um livro médio com capa de couro negra e bordados prateados e dourados nela. O padrão dos desenhos era o mesmo do espelho de Helena e ela ficou surpresa tamanha a semelhança.
-Este livro foi o “portal” que me trouxe. -Gabriel o pegou, abriu o fecho e o mostrou para Helena com suas folhas amareladas e vazias. –Eu o encontrei num sebo de livros na minha cidade. Assim que o encontrei o abri para ver do que se tratava seu conteúdo. Todas as páginas estavam assim. Amareladas e vazias. Entretanto, quando voltei à primeira página um parágrafo surgiu misteriosamente. Lembro-me de cada palavra: ”Com as letras desta página o véu do universo se abre e Gabriel viaja a Ignar. Seus pés não tocam mais o chão de sua Terra. Seus olhos começaram a enxergar a biblioteca de Trumptom. Sua mente ficou absorta em sonhos enquanto vagou pelo Cosmos até chegar aqui. Ao retomar a consciência percebeu que chegara à casa de Eríon”. Parecia até uma espécie de transe. –Continuou ele. –Assim que terminei de ler aquelas palavras vi que estava na biblioteca daqui. Lá encontrei com o professor Henry que me norteou assim como Silvia fez com você.
     A conversa seguiu com mais explicações de Gabriel e perguntas de Helena. Apenas para não o deixar confuso, caro leitor, vou somente esclarecer algumas dúvidas quanto à escola Trumptom. Os alunos chegam a ela quando completam quinze anos de idade para aprender sobre sua casta. De acordo com seus talentos e aptidões vão para uma das seis já ditas por Gabriel. Aos dezoito anos os alunos podem fazer uma espécie de teste prático para comprovarem que estão prontos para exercerem um ofício. Caso não passem podem ficar na escola até os vinte anos tentando. Nunca houve um caso de reprovação em Trumptom tamanha é sua qualidade. Os alunos vêm de toda a Ignar para estudarem nela. Sua estrutura é mantida pelos seis governantes de Ignar. Um para cada classe social. Foi a primeira escola criada em Ignar a beira do Lago Sereiano. Helena ainda não havia visto o que há por de trás da escola por isso ainda não citei o Lago Sereiano antes.
     Depois de mais ou menos uma hora de conversa, Gabriel começou a pestanejar. Helena logo que percebeu parou com as perguntas. Ele apenas vestiu seu pijama no banheiro, guardou os livros que estavam sobre a cama no criado-mudo e adormeceu rapidamente. Helena guardou suas roupas exceto a capa branca. Aquela vestimenta a encantava de uma forma muito latente. Assim que terminou de organizar tudo apagou as luzes do quarto deixando apenas o seu abajur acesso.  Ficou de pé para observar como a capa vestia-lhe muito bem. Foi até o banheiro e vestiu o capuz na frente do espelho para ver como ficou.
     Helena sentiu-se mais forte, protegida e sábia com aquela capa. Havia certa força nela que a fazia muito bem. A sensação de estar em casa só aumentara.
     O sono não chegava de jeito nenhum. Helena ficou animada com tudo o que Gabriel lhe contara sobre Trumptom. A maneira como ele o fez também ajudou bastante. Todo o medo e insegurança se foram com a chegada da presença de Silvia e Gabriel. Todo o caos em sua mente sumiu com o carinho de Silvia e a amizade de Gabriel. Ela sentiu que podia confiar nos dois para o que der e vier. O reflexo de Helena no espelho parecia diferente da Helena de algumas horas atrás na praia. Com certeza havia algo diferente nela.
     Helena despiu a capa e a guardou com o maior cuidado o possível em seu guarda-roupa. Deitou-se na tentativa de pegar no sono, mas isso não aconteceu. Sentou-se na cama e percebeu que o invólucro que as fadas lhe deram também brilhava com tais. Pegou em sua mão e o cutucou com um pouco de curiosidade. Gabriel virou-se para ela e disse:
-Se eu fosse você não faria isto.
     Helena assustou-se e pôs a mão no peito num reflexo seu. Gabriel desculpou-se com ela e continuou a falar.
-Ninhos de fada são muito sensíveis. Você pode machucar o filhote.
-Então eu ganhei uma fada de presente. É isto? –Perguntou Helena achando aquilo um pouco estranho. –E mais uma coisa, você não estava dormindo?
-Sim e não. Sim, você ganhou uma fada e não, eu não estava dormindo. Apenas cochilei. Nunca fui de dormir na hora certa. Toda vez que fecho os olhos mil coisas surgem na minha cabeça e mal consigo dormir. Já até me acostumei.
     Helena deixou o ninho de fada onde estava e perguntou a Gabriel:
-E este ovo dourado? O que vai nascer dele? –Apontou Helena para o ovo em cima de um suporte no criado mudo de Gabriel.
-O professor Henry me disse que é um ovo de grifo. O encontrei no meu primeiro dia de aula quando a turma de alquimistas foi fazer uma aula de campo na floresta sobre ervas. Só não sei quando vai nascer.
     Helena reconheceu a palavra grifo logo de cara, mas demorou alguns segundos para associá-la ao que significa. Grifos são seres híbridos com o corpo de leão e cabeça e asas de águia. Algumas histórias os retratam com algumas variações morfológicas, porém é basicamente isto.
     Um silêncio tomou conta do local. Helena deitou-se e ficou observando o teto. Gabriel também fez o mesmo e quando ela pensou em falar algo percebeu que ele havia pegado no sono. Ela apenas conseguiu alguns minutos depois e não sonhou com nada. Uma fadiga a tomou por inteiro e descansar foi o único prazer que aquela breve noite de sono a proporcionou.
     Gabriel foi o seu despertador. Ele já estava uniformizado e pronto para descer. Os aprendizes de filósofos usam camisas e calças comuns como uniforme. A única peça que os identifica é uma cartola negra. Cada classe tem seu respectivo uniforme em Trumptom como uma forma de sinalizar e padronizar os alunos. Helena espreguiçou-se, esfregou bem os olhos e lhe desejou um bom dia.
-Que o grande Pai lhe aqueça também. –Respondeu ele com um sorriso no rosto enquanto sentava em sua cama e arrumava o material numa pequena bolsa de pano a tiracolo. Era bem simples e cabia nela apenas um caderno, alguns lápis e afins.
     Helena sentou-se na cama, bocejou e ficou com uma expressão de “Hã? Como assim?”. Gabriel sorriu de soslaio e logo lhe explicou o costume.
-É a forma ignariana de se dizer “bom dia”. Durante a noite falamos “Que a grande Mãe lhe ilumine”.
     Helena levantou-se morosamente, coçou a cabeça fazendo com que seus cachos ficassem ainda mais bagunçados e disse:
-E quem são o grande Pai e Mãe?
-Apenas as maiores divindades de Ignar! –Brincou Gabriel. –Ambos apenas criaram a civilização ignariana e tudo mais. Aconselho você a ir se acostumando com essas coisas de clérigo. Acordei um pouco atrasado então, seria bom se você se apressasse um pouco.
     Assim o fez Helena. Rapidamente abriu o guarda-roupa, pegou uma toalha, uma camisa branca, calça e roupas íntimas. Colocou um par de sapatilhas pretas sobre a cama com um par de meias e sua capa. Rapidamente tomou banho, fez sua assepsia matinal e saiu para terminar de se aprontar. Gabriel havia forrado sua cama e a esperava sentado na sua conferindo seus materiais. Seus últimos itens de vestuário estavam exatamente onde deixou sobre a cama. Calçou as meias e as sapatilhas rapidamente e em seguida vestiu sua capa. Pronto! Agora sim Helena estava uma legítima aluna de Trumptom.
     Gabriel e ela desceram para o salão de estar. Ele a guiava pelos corredores do palácio que estavam muito bem iluminados pelos raios de Sol que adentravam pelos vitrais e grandes janelas. Eram mais ou menos oito horas da manha quando ambos chegaram ao salão de estar. Foi difícil encontrar uma mesa que estivesse totalmente desocupada afinal o salão havia começado a exercer sua função. Bandejas flutuavam de um lado ao outro até chegarem à mesa dos alunos. Ao fundo do salão estava a mesa dos professores. Cada um deles em seus respectivos lugares e Silvia na cabeceira da mesa.
     Já era possível ouvir alguns talheres tilintando nos pratos e o som de várias conversas paralelas também. Mas tudo isso de uma forma maneirada, pois o dia apenas acabou de começar em Trumptom. O cheiro de pães quentinhos com café fez o estômago de Helena delirar. As bandejas serviam de um tudo: Pães, frutas, frios, café, sucos e afins. Não demorou muito para que a comida chegasse até os dois por duas bandejas prateadas. No cardápio havia tudo o que tinham de direito. Helena apossou-se logo dos talheres e afins que estavam à mesa para comer. Encheu uma xícara bordada com o brasão da escola de café com leite e começou a comer. Gabriel era mais comedido e vagaroso. Mastigava a comida o mais devagar o possível.
     Era impossível não ignorar os cochichos sobre eles dois. Principalmente sobre Helena. Os olhares de soslaio entregavam os alvos das piadinhas e risadas de provocação. Gabriel apenas ignorava, mas Helena não. Sua face de constrangimento e raiva a entregavam.
-Preparada para a sua primeira aula? –Perguntou Gabriel limpando o canto da boca com um guardanapo.
-Não sei. Acho que sim. –Respondeu ela após engolir toda a raiva dos demais alunos.
     Veja bem, não que todos os alunos de Trumptom sejam ruins ma querendo ou não os bochichos sobressaem na multidão neste tipo de situação. Enfim!
     Findado o horário das refeições, os professores foram os primeiros a saírem. Os alunos tinham uns dez minutos para escovarem os dentes, recolherem algo mais que necessitassem e dirigirem-se à aula. Gabriel continuou guiando Helena pela escola e não parava de falar explicando sobre tudo o que encontravam. Os quadros, vasos, móveis e tudo mais eram alvos de suas dissertações históricas. Mas isso não a incomodava de forma alguma.
     Ao descerem para dirigirem-se às suas respectivas salas Gabriel continuou a guiá-la fazendo surgir uma pergunta em sua mente:
-Você não deveria ir para algum lado diferente do meu? –Perguntou Helena interrompendo uma explicação sobre o lustre do salão de entrada enquanto passavam por debaixo dele.
-Sim e não. –Gabriel titubeou por alguns instantes e respondeu a ela. –Nós aprendizes de filósofos, temos a liberdade de assistir a qualquer aula contanto que façamos anotações sobre o que aprendemos e observamos. Na sexta-feira todos nós compartilhamos destes conhecimentos adquiridos para com a turma e sobre as nossas conclusões também. Desde que comecei na semana passada eu estou frequentando uma aula de cada. Já que você está literalmente perdida, ainda, eu vou com você para a aula da professora Clorin.
     Clorin. Um nome muito atípico para Helena e de uma sonoridade muito estranha para seus ouvidos. Ela e Gabriel passaram pelo salão de entrada e adentraram outra sala cheia de cristaleiras à direita. Nesta a luminosidade era mais divina devido aos inúmeros objetos de cristal que lá estavam fazendo a luz dividir-se nas sete cores do arco-íris. Um grande pórtico em arco dava acesso aos fundos da escola e já era possível ver a margem do Lago Sereiano. Helena logo se animou ao perceber a sua existência nos fundos da escola.
     Lá fora ela pode perceber a magnitude do lago. Do lado onde estava há um pequeno cais de madeira com uns vinte metros de comprimento por uns quatro de largura. A água é cristalina e conforme se afasta da margem vai ficando azulada e profunda. Os respectivos prédios de cada classe faziam um “U” um pouco atrás de Trumptom e à frente do lago. À direita estava a quadra coberta dos guerreiros, a oficina dos artesãos e por fim o teatro dos artistas. À esquerda, o prédio com laboratório e enfermaria dos alquimistas, o templo dos clérigos e a biblioteca dos filósofos.

     Helena estava animada para qualquer coisa que lhe ensinassem na aula e Gabriel também aparentava o mesmo. Enquanto dirigiam-se ao templo por um caminho de areia branca sentiram uma leve brisa tocar-lhes o rosto. O Sol radiava majestosamente e pequenas ondas formavam-se sobre a superfície do lago. A movimentação de alunos era grande e cada vez que se aproximavam do templo mais aprendizes de clérigos surgiam dentre os demais alunos com suas capas branquíssimas esvoaçando na brisa e capuzes sobre as cabeças.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Capítulo I: A Desastrosa chegada de Helena em Ignar

     “Era uma vez” não é a melhor maneira para iniciar esta história já que não se trata de apenas uma única história, Talvez a melhor maneira seja “Eram algumas vezes”... Enfim! Agora que já comecei a narração isso não interessa mais.
     Antes de qualquer coisa deixe-me apresentar Helena: Uma adolescente de quinze anos de idade; cabelos cacheados e negros de um comprimento médio; olhos tão grandes e azuis que pareciam ter sido arrancados de uma boneca; estatura normal para sua idade e pele clara que nada combina com o Sol do litoral pernambucano. Como já deu pra perceber é em Pernambuco onde reside juntamente com seus avós maternos numa casinha simples de frente ao mar que quase toca a praia. Seus pais são grandes executivos e sempre viajam a trabalho. Quando estão em casa, ou melhor, na sua casa volta e meia ligam para Helena á procura de notícias da filha. De certa forma ela já se acostumou com esta ausência, pois foi criada assim desde os seus primeiros anos. E seus avós supriam bem esta “carência” de forma que as saudades eram imperceptíveis. O clima praiano é o cenário perfeito para as brincadeiras lúdicas dela e suas aventuras com poucos amigos. Embora isso não queira dizer que ela seja antipática ou algo do tipo. Muito pelo contrário!
     Apesar de ser bem singela, sua casa é bem aconchegante e rica em livros por todo o lado. Influenciada por sua avó volta e meia lia aventuras durante o alvorecer antes do crepúsculo. Sua bicicleta vermelha é o principal meio de transporte de sua casa até a escola pela orla. Gostava de sentir os cachos esvoaçarem pela brisa salgada que refrescava seu rosto durante o percurso. Ficava chateada quando chovia e não podia o fazer a pedaladas. Nunca deu trabalho na escola, mas às vezes ficava para recuperação... Acho que já lhe contei o suficiente sobre ela. Bem, acima de todas estas coisas a principal característica de Helena é sua fé. Sua avó, Celina, sofre com uma doença que nenhum médico soube identificar. Volta e meia sua querida avó desmaia, sente fortes dores e mal consegue se mover tamanho sofrimento.
     Helena nunca perdeu a fé de que Dona Celina fosse curada. Sua fé não se baseava em uma religião ou algo do tipo... Apenas acreditava que milagrosamente tudo ia dar certo: Sua avó seria curada, seus pais voltariam a morar com ela e sua família estaria realmente completa outra vez.
     Agora sim posso realmente começar a narração desta aventura. Se você é do tipo cético e sem o mínimo de imaginação e insanidade para acreditar no que estou escrevendo, feche o livro e procure outra coisa a fazer porque realmente vou precisar destes itens para que você acredite em minhas palavras. Tudo começa numa noite quente de verão na qual uma queda de energia elétrica ocorre. Os três, Helena e seus avós, reúnem-se na melhor parte da casa que é a varanda na tentativa de fugirem da escuridão e calor. Simplesmente levam consigo uma vela e um bom livro para passarem o tempo.
     Helena deita na rede junto de sua avó enquanto seu avô lê a luz de velas o livro de páginas amareladas balançando-se numa cadeira de balanço. Dona Celina acariciava seus cachos e Helena apenas dava vida a cada palavra dita por seu avô com sua imaginação. A luz da vela bruxuleava nas paredes, as estrelas cintilavam no céu e as ondas arrebentavam a alguns metros dali. Todos estes fatores propiciavam estímulos extras para a imaginação dela. Entre uma fala e outra de uma personagem o tempo mudou bruscamente: Nuvens tempestuosas possuíram o céu e ventos frios sopravam grãos de areia para a varanda.
     Antes que a vela apagasse o trio entrou para abrigar-se. Helena foi ajudar sua avó a preparar a janta enquanto seu avô cuidava de fechar as janelas e afins. Não demorou muito para que demasiadas gotas de chuva caíssem sobre os grãos de areia e o mar revoltasse. Da mesma maneira que surgiu, a tempestade desapareceu deixando os ares da região mais frescos. Após o jantar Helena decidiu caminhar na praia para pensar um pouco. Afinal, um pouco de solidão não faz mal a ninguém. Vestiu seu vestido rendado e praiano que ficava um palmo acima dos calcanhares e saiu. Descalça pisou na areia ainda molhada e sentiu um arrepio dos pés à cabeça. Não estou falando de um arrepio daqueles quando se está febril ou algo do tipo, mas sim um arrepio suave e agradável.
     Após uns dois ou três minutos de caminhada ela avistou um objeto cintilante que estava semi-enterrado na areia, próximo a arrebentação das ondas. Puxou um pouco do vestido com as mãos para facilitar a caminhada acelerada até o objeto e foi ao seu local. Facilmente o desenterrou. Era um espelho oval do tamanho de um pequeno prato. Helena o lavou na arrebentação para remover os grãos de areia e poder estudá-lo mais atentamente. Teve de mergulhar o espelho três vezes para remover completamente à areia. Só então pode contemplar os seráficos detalhes do objeto. Este é prateado com as costas bordadas em fios dourados e uma pedrinha azulada na ponta de seu cabo também prateado. De certa forma ficou surpresa por não encontrar nenhum arranhão no vidro e deduziu que alguém o perdera recentemente.
     Ao olhar mais atentamente para o espelho e ver seu reflexo, Helena realmente surpreendeu-se. O reflexo de seu rosto era nítido no vidro, porém ao invés de o espelho mostrar a praia ao fundo outra imagem foi refletida. O cenário de fundo era uma densa floresta escura que a hipnotizou por alguns segundos que pareceram minutos. Helena não conseguia parar de vislumbrar a imagem. Parecia até estar enfeitiçada. Quando despertou do transe percebeu e sentiu que já não estava mais na praia. Seus pés não estavam sendo molhados pela arrebentação, mas sim pisavam folhas secas e afins. Ao seu redor frondosas árvores erguiam-se de forma colossal fazendo-a parecer um inseto num jardim. O cheiro salgado da maresia foi substituído por odores da floresta. Lama, folhas, flores, frutos e substratos compunham os ares do local que invadiam as narinas dela. Em suas mãos o espelho terminara de emitir uma luz branca fazendo tudo ficar novamente envolto em trevas. Nenhum ruído era ecoado na mata e aquele silêncio a deixou ainda mais confusa e amedrontada.
     Desnorteada e sem saber para onde ir Helena gritou por socorro. E inconscientemente utilizou de sua fé para com a possível ajuda. Novamente o espelho iluminou o local, embora de uma maneira diferente. A prata do artefato emitia uma tênue luz azulada que foi o suficiente para dar um norte à Helena.  Uma ponta de esperança nasceu em seu coração juntamente com a luz que o espelho emitira. O coração pulsava rapidamente e tremer já não era uma opção. Não estou dizendo que estivesse frio, apenas que Helena estava realmente assustada com aquilo. Cuidadosamente foi dando seus primeiros passos naquele local sombrio com o auxílio da luz. Em sua confusa mente as perguntas “O que aconteceu comigo” e “Onde estou” ecoavam diversas vezes. No meio daquela escuridão entre galhos e folhas acima de sua cabeça ela avistou pequenas “coisas” brilhando como vaga-lumes, só que bem maiores. Juntamente com as luzes era possível ouvir um zumbido de pequenas asinhas. Novamente gritou por socorro e aquele ser brilhante voltou de dentre as trevas e parou de frente a ela.
     Este ser trata-se de uma pequena fada dourada. Devia ter uns dez centímetros de comprimento e batia as asas membranosas num ritmo frenético produzindo um zumbido característico. A fada, de corpinho desnudo e olhinhos inocentes, ficou parada diante de Helena a encarando e vice versa. Numa pirueta a fada desceu voando até a mão da aventureira e viu seu espelho. Helena ainda não acreditava no que via, mas mesmo assim resolveu falar com a pequenina:
- Preciso da sua ajuda, amiguinha. - Falou Helena ainda não acreditando naquilo que acabara de ver.
     Aos poucos a fada foi voando mata adentro e na medida do possível Helena a seguia. Seus pés já estavam doloridos graças aos pequenos detritos das árvores no solo. Uma carga de adrenalina foi dispersa em seu corpo e seguir aquela fada foi simplesmente um reflexo dela. Conforme ambas avançavam Helena avistava um brilho, semelhante ao de sua guia, ficando cada vez mais intenso. A fada levou Helena até uma clareira na qual uma árvore de tronco largo e flores grandes abrigavam várias fadas semelhantes a ela. Como abelhas numa colmeia as fadas entravam e saiam das flores. Pareciam estrelas circulando a árvore.
     Assim que perceberam a presença de Helena no recinto, todas elas esconderam-se nas suas flores e apagaram seus brilhos. Helena cautelosamente aproximou-se após perceber o que provocara. Pigarreou para controlar seu tom de voz e da maneira mais suave o possível, disse:
- Fiquem calmas, amiguinhas. Não vou machucar vocês. “Não acredito que estou conversando com fadas”. – Pensou consigo mesma. -Prometo que não farei mal algum. Preciso da ajuda de vocês. Onde estou?
     Naquele momento trechos de Alice no País das Maravilhas vieram à tona na mente dela. Estava se sentindo a própria Alice naquela situação. Morosamente dentro das flores pequenas luzes foram surgindo e quando sentiram que Helena verdadeiramente não lhes oferecia perigo.
-“Realmente só posso estar sonhando ou estou louca!”- Novamente pensou Helena- “Isso não é possível”.
     Após estes pensamentos de incredulidade (Que são totalmente aceitáveis nesta situação) uma voz dentro dela parecia conformar sua mente e coração com tudo aquilo. Era como se toda a situação fosse corriqueira.
- Não sei onde estou. Será que podem me levar a um lugar seguro onde eu possa encontrar ajuda?- Pediu ela novamente.
     Rapidamente as fadinhas agarraram o que podiam nela: Barra do vestido, dedos, mangas e até em alguns cachos de cabelo.
- Já entendi o recado, amiguinhas. Podem ir à minha frente que eu as sigo, mas vão devagar, por favor. Está muito escuro aqui e estou descalça.
     Dito e feito. Boa parte do grupo foi à frente de Helena, enquanto o resto ia escoltando-a com todo o cuidado possível. Cada passo tornava-se cada vez mais sôfrego para os pés de Helena. Pedras, gravetos, espinhos sabe-se lá mais o que contribuíam para isto. Algum tempo depois chegaram à orla da mata. Sair daquele ambiente hostil foi um grande alívio para Helena que se sentiu um pouco menos em perigo. Deparou-se com um caminho de terra que ia até um enorme palácio de um lado e na outra direção perdia-se na escuridão de uma curva.
- Tenho que ir para lá?- Perguntou Helena apontando para o palácio.
     Todas as fadas assentiram com gestos e balançadas de cabeça. Prestes a dar o primeiro passo uma das fadas a interrompeu interpondo-se e gesticulou para que Helena esperasse por alguns momentos. Esta fada disparou floresta adentro como uma bala e não demorou muito para voltar com um presente em seu colo. Trata-se de um casulo de fibra sedosa e translúcida do tamanho de um polegar com um pequeníssimo brilho em seu centro. De uma maneira mágica as outras fadas teceram um cordão de seda ao derredor do pescoço de Helena e a fada com seu presentinho o amarrou a ele. Depois de presenciar tudo o que acabara de ver, Helena, de certa forma já se conformara com o surrealismo do local. Percebendo do que se tratava ela fez uma pequena mesura para suas amiguinhas cintilantes utilizando seu vestido.
     A fada que havia lhe presenteado também fez uma mesura desajeitada, porém carismática. Depois de novamente agradecer com um “Muito obrigada” ela partiu rumo ao palácio deixando suas guias retornarem para dentro da mata.
     Seus pés doíam um pouco menos, pois só havia algumas pedrinhas no caminho e ela as evitava ao máximo. Lembrou-se de imediato da areia molhada que a pouco encontrou seu espelho. O palácio ia erguendo-se cada vez mais e no coração de Helena uma esperança de voltar para casa crescia também. O edifício era cercado por uma sebe alta e que se perdia de vista tanto para a direita quanto para a esquerda. Um portão de bronze impunha-se no fim do caminho perante ela. Chegando mais perto do portão Helena reparou que nele não havia fechadura, cadeado, corrente ou qualquer tipo de aparato que o fechasse ou abrisse. Apenas uma fenda dividia o portão em dois lados bem no seu centro e ia de cima a baixo.
     Antes que Helena pudesse bater palmas ou chamar alguém o portão abriu-se com um rugido metálico um pouco inconveniente naquele momento. Ela até pensou em espiar pela fenda embora agora o portão já esteja aberto. Um jardim majestoso foi apresentado a ela pelo portão: Fontes de mármore jorravam água quebrando o silêncio; Flores descansavam em seus devidos canteiros ansiosas por um cálido dia de Sol; Postes antigos e bem feitos iluminavam o local com luzes âmbar; E o mais importante de tudo... Grama verdinha e bem aparada.
     Um caminho pavimentado ia até o pórtico de entrada do palácio, entretanto as solas dos pés dela pediam socorro. Automaticamente tomou o gramado com percurso até o pórtico. As folhas verdejantes e frescas as massageavam aliviando sua dor e um pouco do medo também. O palácio possuiu uma simetria neoclássica sublime e também era iluminado por luzes de âmbar. Cada janela, e eram muitas, possuía um arco e uma pequena saca. E bem no centro do edifício uma torre de relógio o deixava ainda mais mágico com seu sino de bronze.
     Helena até sentiu-se indigna de adentrar o palácio, porém precisava esclarecer tudo que ocorrera e voltar logo para casa. Ali poderia haver ajuda para isto. Seus avós já deviam estar muito preocupados com ela, pois o relógio da torre marcava exatamente oito e meia da noite. Os portões do palácio estavam abertos e ela sem hesitar, embora acanhada, adentrou. Tudo parecia ser um cartão de boas-vindas bem convidativo.
     Ela deparou-se com um salão de luz dourada e piso xadrez que a fascinaram fazendo seu queixo literalmente cair. Acima de sua cabeça viu o majestoso lustre que reluzia como um segundo Sol. Estatuetas, quadros e outros objetos compunham a decoração e evidenciavam ainda mais o estilo neoclássico. Á sua frente havia duas escadas (à direita e esquerda) de um novo pórtico e davam acesso a uma pequena sacada há uns dez metros do chão. Um facho de luz mais forte vinha deste pórtico e vozes animadas também. Também era possível ouvir o tilintar de talheres, copos e afins como se fosse um restaurante em horário de pico. Esgueirando-se no pórtico e tomando cuidado com seu pingente vivo e espelho mágico, ela espiou o local com apenas um olho a mostra. Parecia estar brincando de pique - esconde.
     No glorioso cômodo, várias mesas e cadeiras tomavam conta do local que deve ser umas vinte vezes maior do que o salão de entrada. No teto havia vários lustres para iluminar a todos que ali se alimentavam. Muitos jovens da idade de Helena se alimentavam e papeavam ali. Como já deu pra perceber era a hora do jantar. Ao fundo há uma mesa, a maior de todas com seis adultos em seus devidos lugares. Dados os fatos, Helena deduziu que o local fosse uma escola e acertou. Ainda vislumbrada com todo o glamour do local ela não percebeu a aproximação de um dos alunos por detrás dela mesma.
-Posso ajudá-la?- Perguntou o tal aluno pondo a mão no ombro de Helena.
     Helena assustou-se abruptamente e num átimo berrou e guinou para dentro do salão ficando à mostra para todos os que ali estavam presentes. O estudante também se assustou deixando cair os dois livros que carregava com a outra mão. Imediatamente todos que ali estavam voltaram suas atenções a ela: Descabelada, pés sujos, vestido amarrotado e também sujo, gotas de suor de puro nervosismo e o espelho em mão.
     O aluno que a assustara recolheu os livros enquanto pedia mil desculpas. Os primeiros comentários começaram a surgir como simples buchichos e progrediram para risadas tímidas e por fim gargalhadas em todo o salão. O aluno ficou tão constrangido quanto Helena. Foi impossível evitar que lágrimas de nervosismo brotassem em seus grandes olhos azuis. Um nó formou-se em sua garganta e falar não era possível. Para completar todo o pacote, sua coluna vertebral tremia como vara-verde fazendo-a tremer por completo. Tamanha foram a sua vergonha e susto que ela esquecera o seu objetivo naquele local, que era pedir ajuda a quem quer que seja. Sua respiração ficou descompassada e os joelhos travaram. As risadas e comentários maldosos e infelizes não cessaram e a situação tornou-se insuportável para ela.
     Do outro lado do salão, da mesa dos professores, mais exatamente, uma senhora de longo e suntuoso vestido a fitava com um par de olhos violeta e muita compaixão. Esta se levantou e mandou todos calarem-se de uma maneira bem nobre na qual não precisou de repetição. Todos obedeceram sem titubear. Esta senhora foi até Helena passando pelas mesas e a abraçou com o maior carinho e cuidado que se pode haver numa doce senhora. Seus cabelos brancos e presos num coque davam-lhe um ar ainda mais materno.
-Desculpe-nos minha querida. Não chore mais. Venha comigo, vou cuidar de você. - Disse a doce senhora enquanto abraçava Helena e a consolava com todo o seu carinho.

     O solene vestido dela parecia envolver Helena e protegê-la de todos os males que foram ditos e gargalhados no salão de jantar. A pela clarinha, pouco enrugada e firme, cheirava a flores com os mais incríveis olores. Helena não conseguia sentir mais nada além do abraço maternal, o aconchegante vestido e o perfume daquela senhora tão caridosa. Ela estava embriagada de tanto nervosismo e anestesiada de carinho e proteção.