quinta-feira, 20 de junho de 2013

Capítulo III: Aprendendo a ser clériga


     Enfim Helena e Gabriel chegaram ao pórtico do templo. Lá mesmo a professora responsável recepcionava os alunos com um abraço. O abraço era um pouco diferente do convencional. Sempre que a professora envolvia o aluno com seus braços tocava a nuca dele ou dela com sua mão direita e o aluno também o fazia e desejavam bênçãos.
     Esta é a professora Clorin. É uma mulher jovem, aparenta ter uns vinte oito ou vinte e nove anos. Seu capuz quase sempre está sobre os cabelos longos e ruivos e possui um andar catedrático. Parece até que cada passo seu é mirado no chão de uma forma precisa. O corpo franzino e voz aguda davam-lhe um ar frágil e solitário, entretanto uma paz inenarrável transladava de seus olhos castanhos.
     A fachada do prédio era repleta de estátuas brancas de mármore e símbolos que Helena nunca vira. O pórtico era a única entrada e saída do local que é circular. Havia várias janelas ao derredor dele com vitrais multicoloridos representando cenas da mitologia ignariana. -Que lá é bem real! Enfim. A cúpula do prédio também é composta de vitrais multicoloridos e em seu topo uma pequena esfera prateada orbita ao derredor de uma dourada que tem três vezes mais seu tamanho. Ambas representam o Sol e a Lua e Helena logo percebeu tal simbolismo.
     Ao aproximar-se mais do pórtico e da professora Helena vestiu seu capuz e permitiu que Gabriel tomasse a iniciativa. Clorin o abraçou, mas ele não tocou sua nuca. Apenas a abraçou normalmente. Assim que a professora abraçou Helena, Gabriel por detrás dela gesticulou para que Helena tocasse a nuca dela e assim o fez. Durante o abraço a professora disse “Que o grande Pai lhe aqueça”.
     Ela e Gabriel entraram no templo enquanto a professora cumprimentava os últimos alunos a chegar. O piso do templo é de um mármore tão negro que é possível ver seu reflexo nitidamente nele. No centro do templo há um círculo com diversos símbolos desconhecidos para ela na cor dourada.
     A luminosidade no local é única e fez Helena ficar boquiaberta literalmente falando. Vários fachos de luz com diversas cores cruzavam-se dando um ar místico para cada centímetro cúbico do templo. Os alunos iam sentando-se ao derredor do círculo com suas capas sobre os ombros. Havia mais dois aprendizes de filósofo no local com um bloquinho em mão anotando coisas mil com suas cartolas sobre a cabeça.
     Assim que Helena e Gabriel assentaram ele puxou sua cartola sabe-se lá de onde e a vestiu. Helena ficou curiosa e logo perguntou o porquê do uniforme dos filósofos.
-De certa forma é uma “brincadeira” nossa. -Respondeu Gabriel. –Dizemos que é para não deixar as idéias fugirem de nossa mente, já que são muitas.
     Helena achou a justificativa estranha e ao mesmo tempo engraçada. Mas de certa forma fazia sentido. Finalmente o último aluno chegou e a professora Clorin pode iniciar sua aula. Antes de começar seus ensinamentos esta foi até um canto da sala, pegou uma bolsa semelhante à de Gabriel e a entregou a Helena.
-Começamos há apenas uma semana atrás então você não perdeu muita coisa. Aqui estão todos os materiais básicos que iremos usar este ano. Os demais eu trago durante as aulas para todos os alunos. –Disse a professora Clorin com sua voz aguda.
     Clorin começou sua aula falando um pouco sobre o que já havia lecionado na semana anterior. Era a segunda semana de aula, então Helena não havia perdido nenhum conteúdo de extrema relevância. Enquanto ela falava todos os alunos, com exceção de Helena, Gabriel e os outros dois filósofos, faziam anotações em seus cadernos de uma forma nada convencional. O caderno flutuava próximo ao seu dono com uma pluma escrevendo tudo o que era dito. Helena achou aquilo algo formidável e logo pegou estes itens em sua bolsa.
-Como faço? –Cochichou ela para Gabriel que estava compenetrado em suas anotações.
-Você é uma clériga... Então, apenas acredite com sua fé que irá acontecer.
     “Você faz parecer tão fácil!” Pensou ela. Helena olhou para a pluma branca e o caderno e simplesmente acreditou que eles fossem escrever. Num átimo ambos saltaram de sua mão e ficaram flutuando em sua frente.
-Algum problema, Helena? –Perguntou a professora Clorin docemente. –Qualquer dúvida apenas levante a mão e terei o maior prazer em ajudá-la. Ah! Como pude me esquecer de lhe explicar o básico? Desculpe-me. Leia a palavra em sua mente com sua fé e pronto. Não é tão fácil de primeira, mas...
     Antes mesmo que a professora terminasse suas explicações a pluma de Helena escrevia tudo o que lhe vinha em mente num ritmo frenético. Todos ficaram espantados com a cena e Clorin admirada com o feito de sua nova aluna. Elogios não foram dispensados da parte dela que prosseguiu com a aula. Antes que Gabriel abrisse a boca para perguntar algo Helena cochichou:
-Não me pergunte como o fiz. Apenas fiz.
     Ela riu de soslaio e Gabriel voltou aos seus pensamentos e anotações à mão. O primeiro tema a ser tratado foi o poder das palavras que saem da boca de um clérigo.
-Algum de vocês reparou algo enquanto eu os abraçava? –Perguntou a professora Clorin de uma forma irônica.
     Gabriel rapidamente levantou a mão para responder a pergunta e antes mesmo que sua fala fosse permitida o fez:
-A senhora nos abençoou como se deve fazer um bom clérigo.
-Muito bem Gabriel. Mas vamos com calma, por favor. Quero explicar tudo com bastante calma para que não haja dúvidas quanto a isto. –Falou a professora. – Nós temos a dádiva de abençoar ao próximo e ao mesmo tempo amaldiçoar.
     A animação da turma foi inevitável. Helena estava tão animada que sorria sem parar como se estivesse assistindo a um espetáculo de circo.
-Embora... –Continuou a professora Clorin com suas explicações. –Devemos ter muito cuidado com esta dádiva divina. Nunca, prestem bem atenção, nunca devemos fazer ambas as coisas sem um motivo muito forte para isso! Tudo o que vai, volta.
-Oba. Então abençoarei a todos! –Brincou um dos alunos clérigo.
-Era exatamente neste ponto onde eu queria chegar! –Bradou alegremente a professora Clorin. –Nem sempre funciona assim. Se por um acaso eu amaldiçoar alguém sem um bom motivo ou para minha defesa a maldição volta duas vezes pior para mim. E se eu abençoar alguém com interesse nesta bênção, o contrário me ocorre e duas vezes pior. Entretanto, se verdadeiramente me compadecer de alguém ou realmente quiser o abençoar como gratidão, serei abençoada. Nunca se sabe quando ou por quem, mas é certo de que serás abençoado.
     Todos estavam com os olhos vidrados na professora Clorin e temiam perder uma só palavra do que ela estava dizendo em suas anotações. Helena estava fascinada com tudo aquilo e apenas observava com um largo sorriso nos lábios.
-Há mais um “detalhe” que necessita de muita atenção! –Continuou a professora Clorin. –Jamais se esqueçam do que vou lhes dizer! Quando vamos abençoar estendemos a mão direita em direção ao objeto da ação. Ou o tocamos, assim como o fiz agora a pouco na entrada com todos vocês.
     Um estalo de fleches passou diante dos olhos de Helena. Agora sim ela entendeu o porquê do abraço clerical ser diferente e tão especial. Agora sim fazia sentido o fato de Gabriel não ter posto a mão na nuca da professora Clorin.
-Em última instancia devemos amaldiçoar algo ou alguém! –Advertiu Clorin bem séria. –Uma vez amaldiçoado, sempre amaldiçoado! A não ser que outro clérigo não saiba da maldição lançada e abençoe o amaldiçoado. Assim a maldição é quebrada. Há mais uma condição para que a maldição seja desfeita. Um exemplo: Eu, Clorin, chego até vocês e digo “estou amaldiçoada!” e vocês se compadecem e me abençoam sendo liberta da maldição. Isso não irá funcionar! Eu teria de fazer por merecer a bênção de vocês. Quanto mais detalhados e sucintos forem os seus dizeres no momento da ação, melhor será o efeito desejado.
     Pelas expressões de todos era possível perceber que o conteúdo fora muito bem explicado e que aula fora bastante interessante.
-Caso tenham alguma dúvida não se acanhem e me perguntem. –Admoestou novamente a professora Clorin.
     Ninguém se manifestou sobre e ela partiu para a fase prática da aula. Foi até um canto do salão e pegou um vaso com uma flor murcha e quase morta plantada nele. Pôs o jarro no centro do círculo e chamou um voluntário para abençoar a pobre e moribunda flor. Uma das clériga que estava sentada o mais próximo o possível da professora se candidatou e num pulo de animação levantou-se. A aprendiza foi até o vaso, ergueu a mão sobre ele e disse:
-Desejo sua vitalidade total para que... Para que... –A aprendiza titubeou por alguns instantes e finalmente completou o verso. –Para que volte a forma real.
     Nada aconteceu com a flor. Embora a aprendiza sofresse as conseqüências de sua bênção mal sucedida. Sua aparência de animada passou a ser moribunda. Olheiras pesadíssimas surgiram em seus olhos e bocejar já não era mais uma opção. Seu rosto todo ficou pálido e não conseguia ficar numa posição ereta. Clorin tomou as rédeas da situação e logo impôs a mão direita sobre sua cabeça dizendo:
-Querer não é poder. Que sua aparência volte ao que era ser.
     Imediatamente tudo se resolveu. Todos ficaram estupefatos com a cena e a própria professora Clorin quebrou o silêncio:
-Alguém sabe me dizer por que isto aconteceu? –Gabriel apenas soprou a resposta óbvia para Helena enquanto a professora aguardava a resposta de alguém.
-Ela não o fez de coração sincero. –Soprou Gabriel.
     Clorin percebeu a resposta e apenas assentiu com um sorriso disfarçado para ele e Helena. Naquele momento, Helena também sussurrou palavras ao vento, mas com um objetivo específico. Porém com sua mão discretamente apontada para a flor sem que nem ao menos Gabriel percebesse tal ato.
-Meus olhos alegres ficam ao te olhar. Suas cores vivas voltam a me encantar. –Soprou Helena.
     De súbito a flor ficou ereta e suas pétalas mórbidas tornaram-se vívidas. Os olhos de Helena brilharam de alegria e Gabriel só então percebeu o feito de sua nova amiga. Todos os alunos entre olharam-se à procura do ou da responsável pela bênção. Clorin olhou diretamente para Helena e assentiram com a cabeça discretamente como se fosse um sinal de parabéns.
-Minha cara, sua animação ao fazer a bênção foi tanta que deixou a compaixão de lado e o ego subiu-lhe à cabeça. –Advertiu Clorin com o máximo de cautela o possível para não desestimular a aluna.
     Naquele momento o sino da torre do relógio soou indicando o horário do intervalo. A professora despediu seus alunos pedindo que a encontrassem na beira do lago para dar continuidade à aula. Gabriel e Helena saíram logo após guardarem seus materiais e pegarem as frutas que Gabriel havia pegado na noite passada. Foram até o Jardim frontal da escola e sentaram em um dos bancos de concreto para aproveitar o lanche.
     O clima estava agradável e bem cálido. As últimas gotículas de orvalho reluziam os raios solares e as flores pareciam dançar conforme a música dos pássaros que por ali voavam de um galho a outro. As fontes jorravam água fazendo pequenos arco-íris surgirem em suas bacias e os pássaros banharem-se. Não havia tantos alunos pelo jardim durante aquele horário. A maioria deles ficava à beira do lago papeando e fazendo essas coisas de colegiais.
     Logo retornaram para suas devidas classes ao ouvirem o sino de Trumptom badalar. A aula clerical prosseguiu com Clorin fazendo mais ponderações sobre o tema que já havia lecionado antes do intervalo. Os grandes olhos de Helena permaneciam atentos a cada movimento da professora e sua pluma escrevia num verdadeiro frenesi de animação. Gabriel também não ficava atrás.
     Findada a aula, Clorin despediu-se de todos e ficou no templo para organizar alguns itens que levara para a aula. Helena estava tão animada que seu coração batia mais rápido e um largo sorriso não lhe saía dos lábios. Gabriel ficou tão feliz quanto ela, afinal era sua única companhia naquela enorme escola. Um calor de meio-dia tomou conta do local e as águas azuladas do lago tornaram-se convidativas. Juntando este fator com um céu límpido e um Sol radiante, a vontade de mergulhar tornou-se ainda mais incontrolável.
     Clorin não havia marcado nenhuma atividade extra naquela tarde. Sendo assim, Helena estava livre de compromissos e combinou de visitar o professor Henry junta de Gabriel. Ele tinha de levar seu ovo de grifo para um “check-up” geral e aproveitou a chance para mostrar o resto do terreno da escola. Enfim almoçaram e descansaram um pouco para evitar problemas digestivos. Foram até o quarto e pegaram o que iriam precisar. Gabriel pegou o ovo, e Helena aconselhada por ele, pegou seu casulo de fada.
     Finalmente desceram para o lago e foram mata à dentro com Gabriel como guia.
-Grande parte da floresta pertence à escola. -Disse Gabriel puxando assunto logo para que a caminhada não ficasse tão longa. –Há uma sebe mais à frente que delimita esta posse. E um pouco mais à frente mora o professor Henry. Ele é o filósofo de Trumptom.
     Gabriel desviou seu passo de um galho que estava caído na trilha em que seguiam e disse para Helena tomar cuidado onde pisa.
-Nossa! Que estranho alguém morar no meio de uma floresta assim.
-Henry é um observador da natureza. Toda a sua filosofia é voltada para os seres vivos e por isso mora por aqui. Já catalogou inúmeras espécies no local pretende continuar assim por um bom tempo.
     Helena tinha motivos de sobra para dizer aquilo. As árvores eram imensas e poucos fachos de luz solar atravessavam por suas copas. A todo instante era possível ouvir o som de algum ser se movendo na floresta. Alguns insetos bem estranhos voavam de um lado para o outro e volta e meia se deparavam com um fruto. O tapete natural invadia a trilha uma vez ou outra pelo caminho, mas Gabriel sabia muito bem por onde estava indo. Helena sentia um cheiro agradável e úmido no ar. Sei que água é inodora, mas quando estamos nos aproximando de uma cascata é impossível não sentir aquele ar maravilhoso. E foi isso que ela Captou com suas narinas.
     Logo chegaram à sebe. Não era muito alta embora fosse muito espessa. Havia uma pequena portinhola no caminho da trilha e foi por ela que passaram. A presença de água tornou-se ainda mais perceptível e Helena logo perguntou a Gabriel se havia um rio ou algo do tipo próximo a eles.
-Há o rio Fluxia aqui perto. É um ótimo lugar para se pescar. Embora tenha que pedir permissão para a elementar de lá. Ela é bem simpática e deixa que pesquem à vontade quase sempre, contanto que não façam bagunça em sua casa.
     Helena não sabia muito bem o que são elementares. Apesar de Clorin ter falado deles rapidamente Helena ainda não havia conseguido associar uma imagem certa do que são. Ela apenas sabia que eles controlavam forças da natureza e que são divindades presentes. Ou seja, estão em Ignar e podem ser visualizadas da forma como queiram se apresentar a seus observadores. Os clérigos conseguem enxergar com muita facilidade os elementares. Por mais que eles se escondam das outras castas, os clérigos sempre irão poder vê-los. Novamente Helena questionou Gabriel sobre elementares. E foi esta explicação que ele a deu.
     Depois de cinco minutos de caminhada chegaram à casa do professor Henry. Quero dizer, à cabana. Ficava situada numa clareira bem ampla e tinha uma pequena horta à direita, um pomar à esquerda e seu teto estava revestido de ervas. Tinha um quarto no andar de cima com uma pequena sacada e dela dava tranquilamente para colher as ervas do teto. E era lá que estava o professor Henry. A pequena chaminé estava empoeirada e com musgo crescendo na borda. Aparentava não ter sido usada há muito tempo.
     Henry percebeu de imediato a chegada dos dois alunos e acenou para ambos e logo os convidou para entrar. Gabriel respondeu com um aceno enquanto segurava o ovo de grifo com a outra mão. Henry entrou em seu quarto e pouco antes de Helena e Gabriel chegarem já estava na porta os aguardando enquanto limpava as mãos sujas de terra no avental de jardinagem que trajava. É jovem e deve ter uns vinte e sete ou vinte oito anos de idade. Os cabelos negros são muito cacheados e, volta e meia, algum cacho caia sobre sua testa. É alto e esguio com mão muito grande embora delicado. Helena logo o percebeu, pois a horta e pomar são muito bem organizados e cuidados.
-Que o grande Pai vos ilumine. –Cumprimentou Henry simpaticamente. Espero que Asas esteja bem.
     Gabriel apertou a mão do professor e Helena também o fez. Henry tem um cheiro agradável de madeira misturado com folhas e terra molhada. Helena logo no início incomodou-se um pouco, porém acostumou-se rapidamente e começou a apreciar o olor da floresta que dele exalava. A cabana parecia pertencer a um duende ou outro ser do tipo, tamanha era sua ligação com a natureza. Adentraram-na com o professor à frente. A porta de entrada dá acesso à sala da cabana. Atrás da sala há a cozinha e à esquerda da sala há uma biblioteca/laboratório. Gabriel como já estava muito bem situado com o local, apesar de sua única semana em Ignar, logo foi para este cômodo.
     Helena apenas os seguia e foi impossível não reparar na decoração do local. Artesanatos se espalhavam por todo o local deixavam o ambiente muito aconchegante. A mobilha é simples mas de bom gosto. As janelas estavam escancaradas e a luz cálida do sol invadia o local. Automaticamente ela lembrou-se de sua casa e seu avô e avó. Quando será que esta loucura toda irá acabar? Pensou consigo mesma. Porém rapidamente esta pergunta foi respondida, ou melhor, esquecida graças a Gabriel:
-Helena, onde está seu casulo de fada?
     Rapidamente Helena puxou o casulinho de dentro de sua camisa e o tirou com todo o cuidado do pescoço. Ela o entregou a Gabriel que o entregou ao professor Henry. Já estavam dentro do laboratório quando isto aconteceu. Há uma grande mesa de madeira bem grande no centro do recinto e muitos frascos com amostras de folhas, flores, unhas, penas e qualquer outro material orgânico que possa ser estado. Tudo estava muito bem etiquetado e apesar da aparente bagunça, Henry sabia muito bem onde estava o que ele quisesse. Livros tomavam conta das prateleiras nas paredes do local. A Única janela estava meio aberta apenas para ventilar o local, e uma lâmpada dava conta de iluminar tudo muito bem.
     Helena ficou se perguntando como havia eletricidade naquele lugar e desistiu de tentar adivinhar logo depois da primeira teoria. Gabriel colocou o ovo sobre a mesa num suporte de madeira que encaixava perfeitamente na sua base. Henry ficou segurando o envoltório muito surpreso e animado com ele.
-Gabriel, vá pegar dois bancos na cozinha para vocês dois. A caminhada até aqui não é nada curta. Então você é a famosa Helena? -Falou ele olhando com seus olhos curiosos e simpáticos para Helena.
-A Helena sou eu sim, mas a parte da famosa eu já não sei. –Respondeu Helena sorrindo e correspondendo a simpatia do docente.
-Como assim? Você é o assunto mais comentado em Trumptom desde ontem e hoje de manhã também. Enfim, minha cara. Será que você pode me contar como conseguiu esta crisálida? Não é todo dia que alguém consegue uma. Pra falar a verdade há muito tempo não vejo uma dessas. E quando vi à primeira vez na minha infância estava vazia.
     Enquanto Henry falava procurava algo em uma das gavetas de uma das bancadas que por ali há.
-Eu ganhei este casulo das fadas que me ajudaram ontem à noite...
     A partir daí Helena começou a contar tudo o que lhe acontecera até finalmente chegar a Trumptom. Como você já leu esta parte vou poupar-lhe das redundâncias.
-Que interessante isto!- Henry havia encontrado um óculo com uma lente super potente e estava observando atentamente o casulo. -Fadas são muito dóceis e não tem contato com humanos tão facilmente. Jamais encontrei um caso nos livros e na vida que narrasse uma história dessas. Não estou duvidando de você, pois conseguir um casulo desses é quase impossível. Ainda mais com o seu conteúdo!
     Henry ficava mais animado a cada piscadela que dava no casulo. Gabriel entrou no local com dois banquinhos de madeira e os posicionou próximos a mesa. Enquanto ele e Helena sentavam-se foi logo falando:
-E então? Nasce quando?
-Não sei dizer ao certo. Nunca estudei antes fadas como estou estudando agora. Entendo como fazem seus casulos, quanto tempo tem em média vivem na fase adulta, mas no período de formação na crisálida não faço a mínima idéia. Pode ser que a qualquer momento rompa o casulo, ou também que demore semanas.
     Henry devolveu cuidadosamente o casulo a sua dona e a parabenizou de novo por seu presente exuberantemente raro. Em seguida começou a examinar o ovo de Gabriel.
-Acho que falta uns cinco ou seis dias pra que ele nasça. Seria melhor você deixá-lo aqui comigo pra evitar qualquer surpresa desagradável. Quem sabe no meio da noite Asas rompe a casca e você vai ter que trazê-lo aqui altas horas. Não vai ser nada bom.
     Gabriel concordou que o ovo ficasse com Henry. Confiava plenamente em seu tutor sem a menor sombra de dúvidas. Helena o perguntou como Gabriel ganhou o ovo e obteve sua resposta.
-Eu o encontrei aqui na floresta logo que cheguei. Como eu lhe disse, cheguei à biblioteca de Trumptom e após receber a assistência de Silvia e os demais docentes eu resolvi andar por ai pra espairecer. Acabei me embrenhando pela mata e no caminho encontrei Asas. Foi então que o professor Henry me encontrou.
     A partir deste ponto a conversa desandou entre Henry e Gabriel. Helena quase não falava, e, quando o fazia geralmente estava perguntando algo. Conversaram sobre plantas, flores e seres da floresta que volta e meia surgem nos limiares de Trumptom. Professor Henry implorou para que Helena o invólucro de sua fada assim que ela nascesse. Ela concordou sem nenhum contraponto.
     Quando Henry reparou as horas já havia passa das quatro e da tarde e com muita pressa mandou que Helena e Gabriel voltassem para Trumptom rapidamente. Afinal, quando o sol se fosse ficaria inviável voltar para a escola pela trilha e ela é o único caminho até a escola. Helena colocou seu capuz sobre a cabeça, pois queria se sentir imponente novamente e isto lhe fez um bem tremendo. Novamente sentiu algo muito bom quando o fez. Despediram-se muito rapidamente do professor e voltaram para a trilha. Estorvaram o passo e conseguiram chegar a tempo na escola. Pouco antes do lanche na verdade.
     Ambos estavam um pouco ofegantes e ansiavam logo por alguma refeição. Distraíram-se tanto que esqueceram completamente da hora, mas chegaram, e era isso o que importava. Comeram até saciar a fome por completo e Gabriel recolheu algumas frutas nos bolsos da calça e levou para o quarto. Ele desceu para ir à biblioteca com vários livros para devolver, enquanto Helena tomava banho. Findado o banho e com mais nada a se fazer, Helena ficou sem saber direito para onde ir ou o que fazer. Então num súbito resolver descer até a sala dos cristais. Sua capa sob as luzes da escola estava ainda mais feérica e majestosa do que de dia. Os alunos que passavam por seu caminho ainda a olhavam de soslaio. Uns com medo, uns com desprezo e outros com curiosidade. Simplesmente ignorou todos.
     O destino final de Helena foi à sala dos cristais. Aquele cômodo a encantara por demais e ficar sentada lá sem fazer nada e observar o lago pela janela e através dos prédios adjacentes foi uma escolha ótima. O sol ainda estava iluminando o céu em carmesim com seus últimos raios de luz e as nuvens vestiram se de nuances rosa e laranja. Chegou a pensar bastante em como voltar para sua casa, mas as memórias da manhã maravilhosa e da tarde aventureira não a deixavam pensar em paz. O movimento de alunos era pouco no local e ficou ainda menor quando souberam que estava por lá.
     Caro leitor se acha que já estou acabando este capítulo, pois narrei como é ser aprendiza de clériga em Ignar, está muito enganado. O fato que me fez nomear este capítulo ainda está por vir. Chega de meandros por hora. Apenas narrei estes fatos que acabou de ler porque não posso ultrapassar o enredo da narração e eles irão ajudar na compreensão de outros fatos. Mas enfim...
     Enquanto Helena ainda brigava com seus pensamentos olhando pra o panorama da enorme janela do recinto, avistou algo atípico. Entre um prédio e outro, que ela não sabia quais eram ainda, viu esguichos d’água jorrar para o alto. Ficou curiosa e foi até a margem do lago para matar sua curiosidade ferrenha. Após passar pelos prédios de aula chegou à margem do lago.
     Viu um cavalo negro com metade do corpo para fora da água esguichar água por um espiráculo na testa. A cena foi um verdadeiro susto, mas como nada foi comum o dia todo... Não foi difícil acostumar com a visão. O cavalo mergulhou mostrando uma bela cauda de escamosa e iridescente. Alguns segundos depois o “cavalo-sereia” surgiu do outro lado da margem a oeste. Helena cerrou os olhos para ver do que se tratava e viu que havia algo lá bem nos cascalhos na margem.
     Correu até lá, pois o cavalo-sereia parecia inquieto e antes de chegar lá percebeu que havia um rapaz desmaiado à margem do lago com os pés ainda dentro d’água. Confirmada sua visão, acelerou mais ainda a corrida até ele. De súbito, ao chegar, ajoelhou ao lado do rapaz. Estava apenas trajando uma bermuda florida e havia um “strep” em seu pé direito que segurava um pedaço de prancha de surfe que boiava na água. Seu corpo atlético e bronzeado estava gélido e imóvel. Os cabelos espetados e loiros ainda estavam molhados e os lábios largos tinham uma cor pálida e frígida. Na fronte, sobre a sobrancelha esquerda, uma ferida aberta sangrava e aquilo deixou Helena ainda mais aflita. Sua mão direita segurava firmemente uma espada seráfica que reluzia sob os últimos raios de sol. Pôs a mão em seu pescoço e reparou que havia pouca pulsação. A respiração estava lentíssima e quase parando. Tentou puxá-lo para tirar os pés da água, mas não teve êxito. O rapaz era muito pesado para ela.
     O desespero só aumentou com o passar dos segundos. Helena num lampejo lembrou-se da sua aula de manhã. Pensou rapidamente em alguns versos para abençoar o rapaz embora o nervosismo a impedisse. Passou as mãos nos cachos até que parassem na nuca com os dedos cruzados. Respirou fundo e deixou que sua fé a guiasse. Do nada os versos vieram em sua mente. Acalmou-se e começou a dizê-los pausadamente:
-O ar sopra e vida e irá soprar. Dentro de você ele irá lhe reanimar.
     Foi impossível não ter fé que aquilo iria dar certo. Alguns segundos depois o rapaz suspirou profundamente e seu tórax começou a mover-se normalmente quando se respira. Após sua terceira inspiração cuspiu água e tossiu fortemente. No lago o cavalo-sereia observava tudo com o olhar vidrado em Helena e o rapaz. Ela correu em direção à escola para procurar por ajuda, embora estivesse com o coração na mão por deixar o rapaz lá na margem do rio naquele estado.
     Viu a professora Clorin saindo do templo e indo em direção a biblioteca. Foi muita sorte sua, pois a movimentação de alunos fora da escola ela praticamente zero. Gritou por ela o máximo que pode pedindo ajuda. Clorin percebendo que era algo de muito sério também foi em direção a Helena às pressas.
- O que aconteceu? –Perguntou Clorin assim que chegou a Helena.
-Um garoto! Na beira do lago! Vamos rápido! –Berrou Helena com a voz trêmula e agitada. A adrenalina era tanta em seu corpo que mal conseguia falar e seus membros tremiam copiosamente. Pegou na mão da professora e a arrastou, literalmente, até o rapaz.
     Assim que chegaram, Clorin ajoelhou ao lado dele e constatou sua hipotermia e baixa ventilação pelo toque em seu pescoço.
-O que aconteceu? –Perguntou ela à Helena. –Quem é ele, Helena?
-Eu não sei! –Respondeu Helena com um nó em sua garganta e lágrimas no canto dos olhos. Eu avistei aquele cavalo na água e vim pra cá. Quando vi estava ao lado dele e tentei o reanimar.
     Clorin olhou para o lago e viu o cavalo-sereia observando tudo e não escondeu o espanto ao ver a espada na mão do rapaz. Enquanto isso Helena contou-lhe que havia o abençoado e tudo mais. Clorin pediu ajuda a ela e juntas conseguiram tirar os pés do rapaz da água sem machucá-lo. Ele tremia nitidamente de frio e isso preocupava Helena mais ainda. Uma empatia tão grande aconteceu naquele momento que ela também sentia um frio enorme por dentro. O sol já havia se posto mesmo assim a temperatura era agradável. Entretanto, Helena sentia um frio de arrepiar.
     A professora retirou sua capa e colocou por cima dele como uma manta. Estendeu suas mãos sobre o peito do rapaz e cochichou algumas palavras estranhas que Helena não reconheceu. Uma onda de calor envolveu o rapaz fazendo a capa de Clorin liberar delicados fios de vapor para o ar. Os cabelos dele secaram um pouco e sua face recobrou um pouco de cor.
-Vá chamar Silvia rapidamente. Diga a ela para trazer ajuda já que temos um rapaz necessitando de cuidados médicos aqui. Não se preocupe tanto, o pior já passou. Agora vá e chame logo Silvia.
     Helena saiu em disparada e foi escola adentro a procura de Silvia. Seus passos eram rápidos e nada precisos. O primeiro local que pensou em procurar foi na sala dela. E assim o fez. Mas chegando lá viu que a porta estava trancada e logo desistiu de tentar procurá-la no local. Os alunos que viam Helena correr de um lado pro outro ficaram assustados e/ou curiosos e era impossível evitar os comentários. Ainda assim Helena não desistiu de sua procura. Foi até o salão de jantar porque deduziu que Silvia estaria cuidando do jantar. E foi exatamente lá que a encontrou conversando com uma das alunas de alquimia sobre o cardápio da noite e do lanche já iria ser servido.
-Silvia! Silvia! –Berrou Helena entrando no salão. –Precisamos de sua ajuda. Há um rapaz desmaiado à beira do lago. A professora Clorin pediu ajuda médica com urgência.

     Helena estava esbaforida e a adrenalina em seu corpo só aumentava. Silvia num ressalto pegou Helena pela mão, pediu à aluna que chamasse dois guerreiros até a margem do lago de forma discreta e levou Helena até sua sala às pressas. No caminho, Helena explicou-lhe tudo o que havia acontecido e o que fez como clériga. Se não fosse a aula de Clorin sabe-se lá o que teria acontecido com o rapaz.

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