terça-feira, 4 de junho de 2013

Capítulo II: Entre o caos novas amizades surgem

     Quando Helena deu por si e pôs as idéias no lugar (Pelo menos o quanto lhe foi possível), se viu numa sala cálida e bem aconchegante. Lembrou-se apenas de ter subido um lance de escada. O estilo neoclássico de decoração mantinha-se em evidência. Embora houvesse uma escrivaninha de frente a janela principal e alguns canapés ao derredor de uma mesinha de centro. Pairava no ar uma atmosfera receptiva e luxuosa.
-Sente-se aqui, minha querida. -Disse a doce senhora enquanto guiava Helena para um dos canapés. –Primeiramente precisamos nos conhecer. Eu me chamo Silvia e sou diretora desta enorme escola, Trumptom. Qual o seu nome?
-He-lena. –Soluçou ela ainda recuperando a razão depois de todo o constrangimento. Preciso muito da sua ajuda...
-Tenha calma, Helena. –Interrompeu Silvia percebendo a agitação e desespero na voz de Helena. –Primeiro você precisa de um bom e relaxante banho, roupas novas e uma bela xícara de chá para pôr as idéias em seu devido lugar.
     Helena apenas assentiu porque não havia mais nada a se fazer naquele momento. Ao lado da janela principal, por detrás da escrivaninha havia uma escada caracol e foi por ela que ambas chegaram a um quarto muito simples, porém aconchegante e perfumado. Era possível encontrar frascos com perfumes e afins sobre todos os móveis do local. Ao lado da cama havia um criado-mudo com um pequeno abajur no qual os desenhos em seu chapéu moviam-se. Tratava-se de um campo florido com pássaros e borboletas voando sobre ele. Uma porta também decorada dava acesso a um banheiro também simples. Silvia a guiou até ele dizendo:
-Há um roupão que você pode vestir enquanto providencio roupas novas. Fique à vontade para banhar-se. Assim que terminar desça e vamos conversar.
     Helena adentrou o banheiro e fechou a porta. Ficou receosa e trancou a porta. Feito isso ela apoiou as costas nela e deslizou até sentar-se enquanto dizia:
-Onde é que eu vim parar?!
     No local havia uma pia com torneira e um vaso sanitário (É claro!), um box de vidro, um espelho sobre a pia e um roupão dependurado por um gancho próximo ao box. Helena tirou sua roupa e entrou no box. Ao lado do chuveiro havia uma pequena prateleira com os mais variados sabonetes, xampus e afins. Helena deixou seu espelho sobre a pia e tirou seu pingente de fada do pescoço. Em seguida ela apenas ligou o chuveiro e deixou a água cair sobre si levando embora suas preocupações e impurezas. Até conseguiu relaxar um pouco.
     Findado o banho, Helena vestiu o roupão secou os cabelos na medida do possível com uma toalha que por ali estava e desceu pela escada caracol. Silvia estava sentada em um dos canapés com o garoto que havia esbarrado nela há pouco. Na mesinha de centro uma bandeja com chá e biscoitos estava a sua espera. O desastrado aluno parecia estar constrangido com a situação e sua cabeça baixa o denunciava.
     Sua pele é morena e os olhos castanhos bem escuros, quase pretos. O cabelo extremamente escorrido e cortado em cuia o fazia parecer um perfeito índio. Não parava de balançar os pés e estalar os dedos mesmo sem produzir nenhum estalo.
-Gabriel veio desculpar-se com você, minha querida. –Disse Silvia gentilmente quebrando o silêncio. Gabriel, esta é Helena.
     Ainda constrangido ele levantou-se e num aperto de mão bem desengonçado a cumprimentou. Helena retribuiu com um leve sorriso.
-Peço desculpas por ter lhe assustado.
     Helena achou o jeito um tanto quanto foral dele engraçado e apenas o desculpou sorrindo graciosamente. Silvia serviu chá para ambos e a si própria também. Helena nunca antes havia sentido o aroma tão forte e gostoso de um chá como aquele.
-Fiquem bem á vontade, meus queridos. –Disse Silvia após servi-los. –Então, conte-me o que aconteceu Helena.
     Helena levou a xícara até sua boca, bebeu um cálido e delicioso gole de chá e começou a falar o seguinte:
-Não sei nem por onde começar a história. Tudo foi tão rápido que ainda nem acredito direito no que aconteceu.
-Tente começar pelo começo, Helena. –Aconselhou Silvia com um sorriso acolhedor no rosto e os olhos violeta bem atentos em Helena.
-Bem... –Começou Helena de uma forma bem desajeitada. -Tudo começou quando encontrei este espelho na praia e...
     Helena mostrou o espelho a Silvia que não escondeu a surpresa por vê-lo.
-Posso segurá-lo um pouco? –Pediu Silvia interrompendo Helena com as mãos esticadas.
     Helena passou o objeto para as mãos de Silvia que se maravilhou. Era visível em seus olhos a contemplação por segurar o espelho. Ela observou cada detalhe dele, cada linha, cada curva, cada milímetro. Gabriel só o fitou discretamente enquanto bebia um gole de chá.
-Depois que o encontrei fui parar numa floresta escura e tenebrosa. –Continuou Helena. –Lá umas fadas bem simpáticas me ajudaram a encontrar o caminho até aqui e me deram isto.
     Helena mostrou o seu presentinho para Silvia que o observou misteriosamente por alguns segundos. Logo em seguida ela respondeu com uma pergunta:
-Onde você morava, me desculpe, mora?
-Em Pernambuco. Porque a pergunta? Há algo de errado nisso?
-Como você deve ter percebido minha querida, aqui já não é mais o seu mundo. Pelo visto você não faz a mínima ideia de onde esteja. –Silvia bebeu um gole bem curto de chá e continuou o seu discurso. –Este espelho é um artefato muito poderoso aqui em Ignar e foi ele que lhe trouxe até aqui. E sinto em lhe informar que não conheço nenhuma maneira de fazê-los voltar aos seus lares. Gabriel também veio do mesmo mundo que você há uma semana e se instalou aqui na escola como um de meus alunos. Caso queira ficar tenho a lhe oferecer um abrigo, vestes, alimentação e a melhor educação de toda a Ignar. Sinto em não poder fazer muito por vocês.
     Helena olhou para Gabriel que torceu a boca um pouco para a direita com se quisesse dizer “não há alternativa” e baixou a cabeça deixando os cachos ainda molhados lhe cobrir o rosto. Uma sensação de impotência apossou-se de Helena que apenas deixou uma lágrima rolar por seu rosto e aceitou a oferta de Silvia.
-Há um único probleminha que também não posso resolver. –Disse Silvia. –Todos os quartos estão ocupados, pois não esperávamos alunos “vindos de outras terras”. –Silvia esforçou-se o máximo que pode para não fazer com que a expressão soasse tão estranha, mas não adiantou muito. –A única alternativa que tenho é que você, Gabriel, divida seu quarto com ela. Infelizmente o único quarto reserva que tenho vago é este e as duplas de rapazes e moças são em uma quantidade exata. Não há como deslocar outros alunos. Algum problema para você, Gabriel?
-Não, não. Será muito bom dividir o quarto com alguém que também não é ignariano.
     Um silêncio constrangedor pairou no local e ficou lá por uns três, quatro segundos. Novamente Silvia tomou a palavra:
-Gabriel, meu querido, avise ao professor Henry que leve as roupas de Helena para o seu quarto. Daqui a pouco Helena pode se encontrar com você lá. Ela vai precisar de alguém que a guie pela escola e você está mais do que apto para o cargo.
     Ele bebeu um último gole de chá e pegou um biscoitinho antes de se levantar e sair da sala. Alguns segundos depois Silvia levantou-se, trancou a porta e voltou a falar com Helena.
-Helena este espelho é muito especial e não pode cair em mãos erradas. Ele agora é seu e você precisa tomar conta dele. Não o mostre para mais ninguém sem me consultar antes. Somente seus professores podem saber da existência deste objeto e mais ninguém.
     Silvia devolveu o espelho a Helena, que assentiu com um leve balançar de cabeça e foi guiada por Silvia até a porta. Após destrancar a porta, ambas foram até o quarto onde Helena se hospedaria. Silvia foi guiando-a enquanto confortava Helena com suas palavras.
-Não se preocupe com sua vida em sua terra minha querida. O tempo em Ignar não obedece ao tempo dos outros planetas no Cosmos. E no decorrer dele, irá perceber que aqui é o melhor lugar para se estar.
     O corredor no qual passaram era repleto de salas de aula e no seu fim há uma escada larga e suntuosa que leva a um andar de quartos. Poucos alunos cruzaram com elas duas e nem ousaram fazer um comentário se quer sobre Helena e suas vestes de banho. O quarto dela e de Gabriel era o último no corredor. Este é forrado com um carpete negro e as paredes azuis. Assim que chegaram à última porta, Silvia bateu nela e a abriu. O quarto estava vazio, mas com as luzes acesas.
     Duas camas à direita são paralelas uma a outra. E um criado mudo com abajur em cima dele ao lado de cada cama. De frente ás duas há um pequeno guarda-roupa e uma porta no fundo do quarto que dá acesso ao banheiro. O quarto deve ter não mais que uns dez metros de comprimento por uns seis de largura. E na parede dos fundos há uma porta dupla com uma cortina impedindo a visão da paisagem.
     Em cima da primeira cama estavam livros e mais livros e um ovo dourado enorme que parecia ter sido posto por um avestruz dourado. Silvia deu um empurrãozinho em Helena para que ela adentrasse o quarto e disse:
-Sinta-se em casa, minha querida. Gabriel deve aparecer por aqui daqui a pouco. Amanhã mesmo você pode começar as aulas.
     Helena agradeceu e despediu-se de Silvia com um sorriso antes dela sair e fechar a porta. Helena sentou-se na cama desocupada e próxima a janela, pôs o espelho e o seu presentinho em cima do criado mudo.. Jogou-se para trás com os braços abertos enquanto fazia um muxoxo. Em sua mente passavam mil teorias de como aquilo poderia ter ocorrido. Ir parar em outro mundo através de um espelho ganhar um presente de uma fada e matricular-se em uma escola de sabe-se lá o que não é pouca coisa para uma noite só. Um problema a menos ela tinha que era preocupar-se com sua família. De cara confiou em Silvia e encontrou um porto seguro nela.
     Nas palavras lidas por ela nos livros de sua casa ela encontrou certa forma de encarar aquilo tudo como uma experiência boa e insana. “Por que não?” Perguntou-se. Em seu coração uma força pulsava ao máximo fazendo com que ela se sentisse segura e em casa. Era sua fé lhe dizendo que tudo iria dar certo. Depois que mais mil teorias ribombaram em sua mente Gabriel chegou com roupas dobradas em mão e algumas frutas num saquinho de papel.
     Helena o ajudou pegando as roupas e pondo em cima de sua nova cama. Uma peça de roupa em especial lhe chamou a atenção: Uma capa de seda branca com capuz. Pediu licença a Gabriel e foi para o banheiro para finalmente vestir-se. O banheiro é realmente muito simples. Um chuveiro, uma pia, uma vaso sanitário, um espelho na porta de um pequeno armário acima da pia e um cesto de roupas sujas. Deve ter uns três metros quadrados.
     Helena vestiu um pijama bem confortável e comportado. Preferiu permanecer descalça, penteou os cabelos e os prendeu num rabo de cavalo com uma presilha que veio junto às roupas. Saiu do banheiro e agradeceu a Gabriel pela ajuda. Ele estava sentado em sua cama estouvada enquanto lia um dos livros que lá estava. Ele retribuiu o agradecimento e disse:
-Então, seja bem-vinda! –Helena pegou sua capa de seda e ficou sentada na cama esperando com que ele logo puxasse mais assunto. –Novamente tenho que pedir desculpas. Eu realmente estava muito distraído quando esbarrei em você.
-Sem problemas. –Respondeu ela. –Por um acaso estamos em época de prova?
-Ah, não! –Respondeu Gabriel meio sem graça com os livros sobre a cama. –Isto aqui é só para passar o tempo enquanto o sono não vem. Gosto de ler de um tudo e geralmente vario muito de assunto. Por isso os livros. Mas não precisa se preocupar porque o ano letivo aqui em Trumptom começou há duas semanas e as provas são práticas de acordo com seu ofício.
     Helena olhou curiosa para Gabriel, pois mais dúvidas surgiram em sua cabeça. Como assim ofícios?
-Vou precisar que você me explique tudo da forma mais fácil que há. Literalmente estou perdida!
-Entendo. Meu primeiro dia aqui foi bem confuso também. Mas enfim... Ignar é o mundo onde estamos e não se surpreenda com qualquer “surrealidade” que ver. Há seis classes de ofício aqui. E são elas: Filósofos, clérigos, alquimistas, guerreiros, artesãos e artistas. Cada uma delas possuiu uma característica bem visível e o estilo de vida delas tem muito a ver com esta característica. Por exemplo, nós os filósofos somos estudiosos. Ler copiosamente para nós é algo comum e escrever também. Estudamos de tudo! Pelo visto você é clériga já que recebeu uma capa. Só eles utilizam essa vestimenta, que por um acaso é seu uniforme. Com certeza você tem uma fé bem atenuante!
-De certa forma sim... Nunca fui religiosa, mas... Sim. Tenho fé em tudo o que costumo fazer. E já que tenho esta capa eu acho que sou uma artista, certo?
     Gabriel e ela riram por alguns minutos com a piada ridícula, mas que pareceu a mais engraçada do mundo, ou melhor, de Ignar, naquele momento.
-De onde você veio, Gabriel? Sou de Pernambuco, como você já sabe. E pelo jeito você também é brasileiro.
-Sou sim. Mais precisamente do Amazonas. Meus olhos azuis e cabelos loiros nem me entregaram, não é mesmo?
     Novamente caíram na gargalhada. Logo em seguida Gabriel explicou-lhe toda a rotina da escola:
-Todos os dias, exceto no domingo, a rotina é a mesma na escola, Helena: Acordamos por volta das seis horas. O café-da-manhã é servido no salão em que nos conhecemos às sete e quinze. Todas as refeições são servidas lá. Oito horas começam as aulas que vão até o meio dia. Há um intervalo das dez até dez e meia para lancharmos algo. O almoço é servido uma hora da tarde e às duas horas, quando há, começam as atividades práticas dos alunos ou extracurriculares.  Variam muito de horário, mas não passam das cinco horas. Depois disso tudo, estamos livres para aproveitar de tudo o que Trumptom tem a oferecer. Aconselho você a levar um lanchinho nas atividades de campo, pois geralmente os professores não retornam à escola para lancharem de tarde. O jantar é servido às sete horas e depois disso as frutas são liberadas para que possamos comer nos quartos quando der fome. O toque de recolher é as dez e meia e depois dele não podemos transitar no prédio. Silvia faz questão de que todos estejam presentes nas três refeições principais.
-Com toda a certeza vou precisar de sua ajuda como guia aqui. A escola é enorme!
-Não se preocupe. Os aprendizes de filósofo podem participar de qualquer aula de segunda à quinta para compartilharem suas observações com a turma na sexta. Amanhã posso ir contigo para sua aula. Depois disso lhe apresento o resto da escola.
-Você faz parecer tão fácil transitar por aqui. Este lugar é imenso! Acho que vou precisar mais do que um dia dos seus serviços de guia. –Gabriel sorriu como uma forma de assentimento. –Outra coisa me incomoda... Como são os alunos daqui?
-Abstraia. Apenas abstraia. –Respondeu Gabriel novamente torcendo o canto da boca como desaprovação. Desde que cheguei aqui nenhum deles falou comigo e quando falam é para fazer brincadeiras muito sem graça. Também cheguei aqui de uma forma nada prazerosa.
-E como foi? Você sabe muito sobre mim, mas não sei nada sobre você... Bem, quase nada.
     Gabriel levantou-se e pegou um livro médio com capa de couro negra e bordados prateados e dourados nela. O padrão dos desenhos era o mesmo do espelho de Helena e ela ficou surpresa tamanha a semelhança.
-Este livro foi o “portal” que me trouxe. -Gabriel o pegou, abriu o fecho e o mostrou para Helena com suas folhas amareladas e vazias. –Eu o encontrei num sebo de livros na minha cidade. Assim que o encontrei o abri para ver do que se tratava seu conteúdo. Todas as páginas estavam assim. Amareladas e vazias. Entretanto, quando voltei à primeira página um parágrafo surgiu misteriosamente. Lembro-me de cada palavra: ”Com as letras desta página o véu do universo se abre e Gabriel viaja a Ignar. Seus pés não tocam mais o chão de sua Terra. Seus olhos começaram a enxergar a biblioteca de Trumptom. Sua mente ficou absorta em sonhos enquanto vagou pelo Cosmos até chegar aqui. Ao retomar a consciência percebeu que chegara à casa de Eríon”. Parecia até uma espécie de transe. –Continuou ele. –Assim que terminei de ler aquelas palavras vi que estava na biblioteca daqui. Lá encontrei com o professor Henry que me norteou assim como Silvia fez com você.
     A conversa seguiu com mais explicações de Gabriel e perguntas de Helena. Apenas para não o deixar confuso, caro leitor, vou somente esclarecer algumas dúvidas quanto à escola Trumptom. Os alunos chegam a ela quando completam quinze anos de idade para aprender sobre sua casta. De acordo com seus talentos e aptidões vão para uma das seis já ditas por Gabriel. Aos dezoito anos os alunos podem fazer uma espécie de teste prático para comprovarem que estão prontos para exercerem um ofício. Caso não passem podem ficar na escola até os vinte anos tentando. Nunca houve um caso de reprovação em Trumptom tamanha é sua qualidade. Os alunos vêm de toda a Ignar para estudarem nela. Sua estrutura é mantida pelos seis governantes de Ignar. Um para cada classe social. Foi a primeira escola criada em Ignar a beira do Lago Sereiano. Helena ainda não havia visto o que há por de trás da escola por isso ainda não citei o Lago Sereiano antes.
     Depois de mais ou menos uma hora de conversa, Gabriel começou a pestanejar. Helena logo que percebeu parou com as perguntas. Ele apenas vestiu seu pijama no banheiro, guardou os livros que estavam sobre a cama no criado-mudo e adormeceu rapidamente. Helena guardou suas roupas exceto a capa branca. Aquela vestimenta a encantava de uma forma muito latente. Assim que terminou de organizar tudo apagou as luzes do quarto deixando apenas o seu abajur acesso.  Ficou de pé para observar como a capa vestia-lhe muito bem. Foi até o banheiro e vestiu o capuz na frente do espelho para ver como ficou.
     Helena sentiu-se mais forte, protegida e sábia com aquela capa. Havia certa força nela que a fazia muito bem. A sensação de estar em casa só aumentara.
     O sono não chegava de jeito nenhum. Helena ficou animada com tudo o que Gabriel lhe contara sobre Trumptom. A maneira como ele o fez também ajudou bastante. Todo o medo e insegurança se foram com a chegada da presença de Silvia e Gabriel. Todo o caos em sua mente sumiu com o carinho de Silvia e a amizade de Gabriel. Ela sentiu que podia confiar nos dois para o que der e vier. O reflexo de Helena no espelho parecia diferente da Helena de algumas horas atrás na praia. Com certeza havia algo diferente nela.
     Helena despiu a capa e a guardou com o maior cuidado o possível em seu guarda-roupa. Deitou-se na tentativa de pegar no sono, mas isso não aconteceu. Sentou-se na cama e percebeu que o invólucro que as fadas lhe deram também brilhava com tais. Pegou em sua mão e o cutucou com um pouco de curiosidade. Gabriel virou-se para ela e disse:
-Se eu fosse você não faria isto.
     Helena assustou-se e pôs a mão no peito num reflexo seu. Gabriel desculpou-se com ela e continuou a falar.
-Ninhos de fada são muito sensíveis. Você pode machucar o filhote.
-Então eu ganhei uma fada de presente. É isto? –Perguntou Helena achando aquilo um pouco estranho. –E mais uma coisa, você não estava dormindo?
-Sim e não. Sim, você ganhou uma fada e não, eu não estava dormindo. Apenas cochilei. Nunca fui de dormir na hora certa. Toda vez que fecho os olhos mil coisas surgem na minha cabeça e mal consigo dormir. Já até me acostumei.
     Helena deixou o ninho de fada onde estava e perguntou a Gabriel:
-E este ovo dourado? O que vai nascer dele? –Apontou Helena para o ovo em cima de um suporte no criado mudo de Gabriel.
-O professor Henry me disse que é um ovo de grifo. O encontrei no meu primeiro dia de aula quando a turma de alquimistas foi fazer uma aula de campo na floresta sobre ervas. Só não sei quando vai nascer.
     Helena reconheceu a palavra grifo logo de cara, mas demorou alguns segundos para associá-la ao que significa. Grifos são seres híbridos com o corpo de leão e cabeça e asas de águia. Algumas histórias os retratam com algumas variações morfológicas, porém é basicamente isto.
     Um silêncio tomou conta do local. Helena deitou-se e ficou observando o teto. Gabriel também fez o mesmo e quando ela pensou em falar algo percebeu que ele havia pegado no sono. Ela apenas conseguiu alguns minutos depois e não sonhou com nada. Uma fadiga a tomou por inteiro e descansar foi o único prazer que aquela breve noite de sono a proporcionou.
     Gabriel foi o seu despertador. Ele já estava uniformizado e pronto para descer. Os aprendizes de filósofos usam camisas e calças comuns como uniforme. A única peça que os identifica é uma cartola negra. Cada classe tem seu respectivo uniforme em Trumptom como uma forma de sinalizar e padronizar os alunos. Helena espreguiçou-se, esfregou bem os olhos e lhe desejou um bom dia.
-Que o grande Pai lhe aqueça também. –Respondeu ele com um sorriso no rosto enquanto sentava em sua cama e arrumava o material numa pequena bolsa de pano a tiracolo. Era bem simples e cabia nela apenas um caderno, alguns lápis e afins.
     Helena sentou-se na cama, bocejou e ficou com uma expressão de “Hã? Como assim?”. Gabriel sorriu de soslaio e logo lhe explicou o costume.
-É a forma ignariana de se dizer “bom dia”. Durante a noite falamos “Que a grande Mãe lhe ilumine”.
     Helena levantou-se morosamente, coçou a cabeça fazendo com que seus cachos ficassem ainda mais bagunçados e disse:
-E quem são o grande Pai e Mãe?
-Apenas as maiores divindades de Ignar! –Brincou Gabriel. –Ambos apenas criaram a civilização ignariana e tudo mais. Aconselho você a ir se acostumando com essas coisas de clérigo. Acordei um pouco atrasado então, seria bom se você se apressasse um pouco.
     Assim o fez Helena. Rapidamente abriu o guarda-roupa, pegou uma toalha, uma camisa branca, calça e roupas íntimas. Colocou um par de sapatilhas pretas sobre a cama com um par de meias e sua capa. Rapidamente tomou banho, fez sua assepsia matinal e saiu para terminar de se aprontar. Gabriel havia forrado sua cama e a esperava sentado na sua conferindo seus materiais. Seus últimos itens de vestuário estavam exatamente onde deixou sobre a cama. Calçou as meias e as sapatilhas rapidamente e em seguida vestiu sua capa. Pronto! Agora sim Helena estava uma legítima aluna de Trumptom.
     Gabriel e ela desceram para o salão de estar. Ele a guiava pelos corredores do palácio que estavam muito bem iluminados pelos raios de Sol que adentravam pelos vitrais e grandes janelas. Eram mais ou menos oito horas da manha quando ambos chegaram ao salão de estar. Foi difícil encontrar uma mesa que estivesse totalmente desocupada afinal o salão havia começado a exercer sua função. Bandejas flutuavam de um lado ao outro até chegarem à mesa dos alunos. Ao fundo do salão estava a mesa dos professores. Cada um deles em seus respectivos lugares e Silvia na cabeceira da mesa.
     Já era possível ouvir alguns talheres tilintando nos pratos e o som de várias conversas paralelas também. Mas tudo isso de uma forma maneirada, pois o dia apenas acabou de começar em Trumptom. O cheiro de pães quentinhos com café fez o estômago de Helena delirar. As bandejas serviam de um tudo: Pães, frutas, frios, café, sucos e afins. Não demorou muito para que a comida chegasse até os dois por duas bandejas prateadas. No cardápio havia tudo o que tinham de direito. Helena apossou-se logo dos talheres e afins que estavam à mesa para comer. Encheu uma xícara bordada com o brasão da escola de café com leite e começou a comer. Gabriel era mais comedido e vagaroso. Mastigava a comida o mais devagar o possível.
     Era impossível não ignorar os cochichos sobre eles dois. Principalmente sobre Helena. Os olhares de soslaio entregavam os alvos das piadinhas e risadas de provocação. Gabriel apenas ignorava, mas Helena não. Sua face de constrangimento e raiva a entregavam.
-Preparada para a sua primeira aula? –Perguntou Gabriel limpando o canto da boca com um guardanapo.
-Não sei. Acho que sim. –Respondeu ela após engolir toda a raiva dos demais alunos.
     Veja bem, não que todos os alunos de Trumptom sejam ruins ma querendo ou não os bochichos sobressaem na multidão neste tipo de situação. Enfim!
     Findado o horário das refeições, os professores foram os primeiros a saírem. Os alunos tinham uns dez minutos para escovarem os dentes, recolherem algo mais que necessitassem e dirigirem-se à aula. Gabriel continuou guiando Helena pela escola e não parava de falar explicando sobre tudo o que encontravam. Os quadros, vasos, móveis e tudo mais eram alvos de suas dissertações históricas. Mas isso não a incomodava de forma alguma.
     Ao descerem para dirigirem-se às suas respectivas salas Gabriel continuou a guiá-la fazendo surgir uma pergunta em sua mente:
-Você não deveria ir para algum lado diferente do meu? –Perguntou Helena interrompendo uma explicação sobre o lustre do salão de entrada enquanto passavam por debaixo dele.
-Sim e não. –Gabriel titubeou por alguns instantes e respondeu a ela. –Nós aprendizes de filósofos, temos a liberdade de assistir a qualquer aula contanto que façamos anotações sobre o que aprendemos e observamos. Na sexta-feira todos nós compartilhamos destes conhecimentos adquiridos para com a turma e sobre as nossas conclusões também. Desde que comecei na semana passada eu estou frequentando uma aula de cada. Já que você está literalmente perdida, ainda, eu vou com você para a aula da professora Clorin.
     Clorin. Um nome muito atípico para Helena e de uma sonoridade muito estranha para seus ouvidos. Ela e Gabriel passaram pelo salão de entrada e adentraram outra sala cheia de cristaleiras à direita. Nesta a luminosidade era mais divina devido aos inúmeros objetos de cristal que lá estavam fazendo a luz dividir-se nas sete cores do arco-íris. Um grande pórtico em arco dava acesso aos fundos da escola e já era possível ver a margem do Lago Sereiano. Helena logo se animou ao perceber a sua existência nos fundos da escola.
     Lá fora ela pode perceber a magnitude do lago. Do lado onde estava há um pequeno cais de madeira com uns vinte metros de comprimento por uns quatro de largura. A água é cristalina e conforme se afasta da margem vai ficando azulada e profunda. Os respectivos prédios de cada classe faziam um “U” um pouco atrás de Trumptom e à frente do lago. À direita estava a quadra coberta dos guerreiros, a oficina dos artesãos e por fim o teatro dos artistas. À esquerda, o prédio com laboratório e enfermaria dos alquimistas, o templo dos clérigos e a biblioteca dos filósofos.

     Helena estava animada para qualquer coisa que lhe ensinassem na aula e Gabriel também aparentava o mesmo. Enquanto dirigiam-se ao templo por um caminho de areia branca sentiram uma leve brisa tocar-lhes o rosto. O Sol radiava majestosamente e pequenas ondas formavam-se sobre a superfície do lago. A movimentação de alunos era grande e cada vez que se aproximavam do templo mais aprendizes de clérigos surgiam dentre os demais alunos com suas capas branquíssimas esvoaçando na brisa e capuzes sobre as cabeças.

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