Capítulo
II: Entre o caos novas amizades surgem
Quando Helena deu por si e pôs as idéias
no lugar (Pelo menos o quanto lhe foi possível), se viu numa sala cálida e bem
aconchegante. Lembrou-se apenas de ter subido um lance de escada. O estilo
neoclássico de decoração mantinha-se em evidência. Embora houvesse uma
escrivaninha de frente a janela principal e alguns canapés ao derredor de uma
mesinha de centro. Pairava no ar uma atmosfera receptiva e luxuosa.
-Sente-se aqui, minha
querida. -Disse a doce senhora enquanto guiava Helena para um dos canapés.
–Primeiramente precisamos nos conhecer. Eu me chamo Silvia e sou diretora desta
enorme escola, Trumptom. Qual o seu nome?
-He-lena. –Soluçou ela ainda
recuperando a razão depois de todo o constrangimento. Preciso muito da sua
ajuda...
-Tenha calma, Helena.
–Interrompeu Silvia percebendo a agitação e desespero na voz de Helena.
–Primeiro você precisa de um bom e relaxante banho, roupas novas e uma bela
xícara de chá para pôr as idéias em seu devido lugar.
Helena apenas assentiu porque não havia
mais nada a se fazer naquele momento. Ao lado da janela principal, por detrás
da escrivaninha havia uma escada caracol e foi por ela que ambas chegaram a um
quarto muito simples, porém aconchegante e perfumado. Era possível encontrar
frascos com perfumes e afins sobre todos os móveis do local. Ao lado da cama
havia um criado-mudo com um pequeno abajur no qual os desenhos em seu chapéu
moviam-se. Tratava-se de um campo florido com pássaros e borboletas voando
sobre ele. Uma porta também decorada dava acesso a um banheiro também simples.
Silvia a guiou até ele dizendo:
-Há um roupão que você pode
vestir enquanto providencio roupas novas. Fique à vontade para banhar-se. Assim
que terminar desça e vamos conversar.
Helena adentrou o banheiro e fechou a
porta. Ficou receosa e trancou a porta. Feito isso ela apoiou as costas nela e
deslizou até sentar-se enquanto dizia:
-Onde é que eu vim parar?!
No local havia uma pia com torneira e um
vaso sanitário (É claro!), um box de vidro, um espelho sobre a pia e um roupão
dependurado por um gancho próximo ao box. Helena tirou sua roupa e entrou no
box. Ao lado do chuveiro havia uma pequena prateleira com os mais variados
sabonetes, xampus e afins. Helena deixou seu espelho sobre a pia e tirou seu
pingente de fada do pescoço. Em seguida ela apenas ligou o chuveiro e deixou a
água cair sobre si levando embora suas preocupações e impurezas. Até conseguiu
relaxar um pouco.
Findado o banho, Helena vestiu o roupão
secou os cabelos na medida do possível com uma toalha que por ali estava e
desceu pela escada caracol. Silvia estava sentada em um dos canapés com o
garoto que havia esbarrado nela há pouco. Na mesinha de centro uma bandeja com
chá e biscoitos estava a sua espera. O desastrado aluno parecia estar
constrangido com a situação e sua cabeça baixa o denunciava.
Sua pele é morena e os olhos castanhos bem
escuros, quase pretos. O cabelo extremamente escorrido e cortado em cuia o
fazia parecer um perfeito índio. Não parava de balançar os pés e estalar os
dedos mesmo sem produzir nenhum estalo.
-Gabriel veio desculpar-se
com você, minha querida. –Disse Silvia gentilmente quebrando o silêncio.
Gabriel, esta é Helena.
Ainda constrangido ele levantou-se e num
aperto de mão bem desengonçado a cumprimentou. Helena retribuiu com um leve
sorriso.
-Peço desculpas por ter lhe
assustado.
Helena achou o jeito um tanto quanto foral
dele engraçado e apenas o desculpou sorrindo graciosamente. Silvia serviu chá
para ambos e a si própria também. Helena nunca antes havia sentido o aroma tão forte
e gostoso de um chá como aquele.
-Fiquem bem á vontade, meus
queridos. –Disse Silvia após servi-los. –Então, conte-me o que aconteceu
Helena.
Helena levou a xícara até sua boca, bebeu
um cálido e delicioso gole de chá e começou a falar o seguinte:
-Não sei nem por onde
começar a história. Tudo foi tão rápido que ainda nem acredito direito no que
aconteceu.
-Tente começar pelo começo,
Helena. –Aconselhou Silvia com um sorriso acolhedor no rosto e os olhos violeta
bem atentos em Helena.
-Bem... –Começou Helena de
uma forma bem desajeitada. -Tudo começou quando encontrei este espelho na praia
e...
Helena mostrou o espelho a Silvia que não
escondeu a surpresa por vê-lo.
-Posso segurá-lo um pouco?
–Pediu Silvia interrompendo Helena com as mãos esticadas.
Helena passou o objeto para as mãos de
Silvia que se maravilhou. Era visível em seus olhos a contemplação por segurar
o espelho. Ela observou cada detalhe dele, cada linha, cada curva, cada
milímetro. Gabriel só o fitou discretamente enquanto bebia um gole de chá.
-Depois que o encontrei fui
parar numa floresta escura e tenebrosa. –Continuou Helena. –Lá umas fadas bem
simpáticas me ajudaram a encontrar o caminho até aqui e me deram isto.
Helena mostrou o seu presentinho para
Silvia que o observou misteriosamente por alguns segundos. Logo em seguida ela
respondeu com uma pergunta:
-Onde você morava, me
desculpe, mora?
-Em Pernambuco. Porque a pergunta?
Há algo de errado nisso?
-Como você deve ter
percebido minha querida, aqui já não é mais o seu mundo. Pelo visto você não
faz a mínima ideia de onde esteja. –Silvia bebeu um gole bem curto de chá e
continuou o seu discurso. –Este espelho é um artefato muito poderoso aqui em
Ignar e foi ele que lhe trouxe até aqui. E sinto em lhe informar que não
conheço nenhuma maneira de fazê-los voltar aos seus lares. Gabriel também veio
do mesmo mundo que você há uma semana e se instalou aqui na escola como um de
meus alunos. Caso queira ficar tenho a lhe oferecer um abrigo, vestes,
alimentação e a melhor educação de toda a Ignar. Sinto em não poder fazer muito
por vocês.
Helena olhou para Gabriel que torceu a
boca um pouco para a direita com se quisesse dizer “não há alternativa” e
baixou a cabeça deixando os cachos ainda molhados lhe cobrir o rosto. Uma
sensação de impotência apossou-se de Helena que apenas deixou uma lágrima rolar
por seu rosto e aceitou a oferta de Silvia.
-Há um único probleminha que
também não posso resolver. –Disse Silvia. –Todos os quartos estão ocupados,
pois não esperávamos alunos “vindos de outras terras”. –Silvia esforçou-se o
máximo que pode para não fazer com que a expressão soasse tão estranha, mas não
adiantou muito. –A única alternativa que tenho é que você, Gabriel, divida seu
quarto com ela. Infelizmente o único quarto reserva que tenho vago é este e as
duplas de rapazes e moças são em uma quantidade exata. Não há como deslocar
outros alunos. Algum problema para você, Gabriel?
-Não, não. Será muito bom
dividir o quarto com alguém que também não é ignariano.
Um silêncio constrangedor pairou no local
e ficou lá por uns três, quatro segundos. Novamente Silvia tomou a palavra:
-Gabriel, meu querido, avise
ao professor Henry que leve as roupas de Helena para o seu quarto. Daqui a
pouco Helena pode se encontrar com você lá. Ela vai precisar de alguém que a
guie pela escola e você está mais do que apto para o cargo.
Ele bebeu um último gole de chá e pegou um
biscoitinho antes de se levantar e sair da sala. Alguns segundos depois Silvia
levantou-se, trancou a porta e voltou a falar com Helena.
-Helena este espelho é muito
especial e não pode cair em mãos erradas. Ele agora é seu e você precisa tomar
conta dele. Não o mostre para mais ninguém sem me consultar antes. Somente seus
professores podem saber da existência deste objeto e mais ninguém.
Silvia devolveu o espelho a Helena, que
assentiu com um leve balançar de cabeça e foi guiada por Silvia até a porta.
Após destrancar a porta, ambas foram até o quarto onde Helena se hospedaria.
Silvia foi guiando-a enquanto confortava Helena com suas palavras.
-Não se preocupe com sua
vida em sua terra minha querida. O tempo em Ignar não obedece ao tempo dos
outros planetas no Cosmos. E no decorrer dele, irá perceber que aqui é o melhor
lugar para se estar.
O corredor no qual passaram era repleto de
salas de aula e no seu fim há uma escada larga e suntuosa que leva a um andar
de quartos. Poucos alunos cruzaram com elas duas e nem ousaram fazer um
comentário se quer sobre Helena e suas vestes de banho. O quarto dela e de
Gabriel era o último no corredor. Este é forrado com um carpete negro e as
paredes azuis. Assim que chegaram à última porta, Silvia bateu nela e a abriu.
O quarto estava vazio, mas com as luzes acesas.
Duas camas à direita são paralelas uma a
outra. E um criado mudo com abajur em cima dele ao lado de cada cama. De frente
ás duas há um pequeno guarda-roupa e uma porta no fundo do quarto que dá acesso
ao banheiro. O quarto deve ter não mais que uns dez metros de comprimento por
uns seis de largura. E na parede dos fundos há uma porta dupla com uma cortina
impedindo a visão da paisagem.
Em cima da primeira cama estavam livros e
mais livros e um ovo dourado enorme que parecia ter sido posto por um avestruz
dourado. Silvia deu um empurrãozinho em Helena para que ela adentrasse o quarto
e disse:
-Sinta-se em casa, minha
querida. Gabriel deve aparecer por aqui daqui a pouco. Amanhã mesmo você pode
começar as aulas.
Helena agradeceu e despediu-se de Silvia
com um sorriso antes dela sair e fechar a porta. Helena sentou-se na cama
desocupada e próxima a janela, pôs o espelho e o seu presentinho em cima do
criado mudo.. Jogou-se para trás com os braços abertos enquanto fazia um
muxoxo. Em sua mente passavam mil teorias de como aquilo poderia ter ocorrido.
Ir parar em outro mundo através de um espelho ganhar um presente de uma fada e
matricular-se em uma escola de sabe-se lá o que não é pouca coisa para uma
noite só. Um problema a menos ela tinha que era preocupar-se com sua família.
De cara confiou em Silvia e encontrou um porto seguro nela.
Nas palavras lidas por ela nos livros de
sua casa ela encontrou certa forma de encarar aquilo tudo como uma experiência
boa e insana. “Por que não?” Perguntou-se. Em seu coração uma força pulsava ao
máximo fazendo com que ela se sentisse segura e em casa. Era sua fé lhe dizendo
que tudo iria dar certo. Depois que mais mil teorias ribombaram em sua mente
Gabriel chegou com roupas dobradas em mão e algumas frutas num saquinho de
papel.
Helena o ajudou pegando as roupas e pondo
em cima de sua nova cama. Uma peça de roupa em especial lhe chamou a atenção:
Uma capa de seda branca com capuz. Pediu licença a Gabriel e foi para o banheiro
para finalmente vestir-se. O banheiro é realmente muito simples. Um chuveiro, uma
pia, uma vaso sanitário, um espelho na porta de um pequeno armário acima da pia
e um cesto de roupas sujas. Deve ter uns três metros quadrados.
Helena vestiu um pijama bem confortável e
comportado. Preferiu permanecer descalça, penteou os cabelos e os prendeu num
rabo de cavalo com uma presilha que veio junto às roupas. Saiu do banheiro e
agradeceu a Gabriel pela ajuda. Ele estava sentado em sua cama estouvada enquanto
lia um dos livros que lá estava. Ele retribuiu o agradecimento e disse:
-Então, seja bem-vinda!
–Helena pegou sua capa de seda e ficou sentada na cama esperando com que ele
logo puxasse mais assunto. –Novamente tenho que pedir desculpas. Eu realmente
estava muito distraído quando esbarrei em você.
-Sem problemas. –Respondeu
ela. –Por um acaso estamos em época de prova?
-Ah, não! –Respondeu Gabriel
meio sem graça com os livros sobre a cama. –Isto aqui é só para passar o tempo
enquanto o sono não vem. Gosto de ler de um tudo e geralmente vario muito de
assunto. Por isso os livros. Mas não precisa se preocupar porque o ano letivo
aqui em Trumptom começou há duas semanas e as provas são práticas de acordo com
seu ofício.
Helena olhou curiosa para Gabriel, pois
mais dúvidas surgiram em sua cabeça. Como assim ofícios?
-Vou precisar que você me
explique tudo da forma mais fácil que há. Literalmente estou perdida!
-Entendo. Meu primeiro dia
aqui foi bem confuso também. Mas enfim... Ignar é o mundo onde estamos e não se
surpreenda com qualquer “surrealidade” que ver. Há seis classes de ofício aqui.
E são elas: Filósofos, clérigos, alquimistas, guerreiros, artesãos e artistas.
Cada uma delas possuiu uma característica bem visível e o estilo de vida delas
tem muito a ver com esta característica. Por exemplo, nós os filósofos somos
estudiosos. Ler copiosamente para nós é algo comum e escrever também. Estudamos
de tudo! Pelo visto você é clériga já que recebeu uma capa. Só eles utilizam
essa vestimenta, que por um acaso é seu uniforme. Com certeza você tem uma fé
bem atenuante!
-De certa forma sim... Nunca
fui religiosa, mas... Sim. Tenho fé em tudo o que costumo fazer. E já que tenho
esta capa eu acho que sou uma artista, certo?
Gabriel e ela riram por alguns minutos com
a piada ridícula, mas que pareceu a mais engraçada do mundo, ou melhor, de
Ignar, naquele momento.
-De onde você veio, Gabriel?
Sou de Pernambuco, como você já sabe. E pelo jeito você também é brasileiro.
-Sou sim. Mais precisamente
do Amazonas. Meus olhos azuis e cabelos loiros nem me entregaram, não é mesmo?
Novamente caíram na gargalhada. Logo em
seguida Gabriel explicou-lhe toda a rotina da escola:
-Todos os dias, exceto no
domingo, a rotina é a mesma na escola, Helena: Acordamos por volta das seis
horas. O café-da-manhã é servido no salão em que nos conhecemos às sete e
quinze. Todas as refeições são servidas lá. Oito horas começam as aulas que vão
até o meio dia. Há um intervalo das dez até dez e meia para lancharmos algo. O
almoço é servido uma hora da tarde e às duas horas, quando há, começam as
atividades práticas dos alunos ou extracurriculares. Variam muito de horário, mas não passam das
cinco horas. Depois disso tudo, estamos livres para aproveitar de tudo o que
Trumptom tem a oferecer. Aconselho você a levar um lanchinho nas atividades de
campo, pois geralmente os professores não retornam à escola para lancharem de
tarde. O jantar é servido às sete horas e depois disso as frutas são liberadas
para que possamos comer nos quartos quando der fome. O toque de recolher é as
dez e meia e depois dele não podemos transitar no prédio. Silvia faz questão de
que todos estejam presentes nas três refeições principais.
-Com toda a certeza vou
precisar de sua ajuda como guia aqui. A escola é enorme!
-Não se preocupe. Os
aprendizes de filósofo podem participar de qualquer aula de segunda à quinta
para compartilharem suas observações com a turma na sexta. Amanhã posso ir
contigo para sua aula. Depois disso lhe apresento o resto da escola.
-Você faz parecer tão fácil
transitar por aqui. Este lugar é imenso! Acho que vou precisar mais do que um
dia dos seus serviços de guia. –Gabriel sorriu como uma forma de assentimento.
–Outra coisa me incomoda... Como são os alunos daqui?
-Abstraia. Apenas abstraia.
–Respondeu Gabriel novamente torcendo o canto da boca como desaprovação. Desde
que cheguei aqui nenhum deles falou comigo e quando falam é para fazer
brincadeiras muito sem graça. Também cheguei aqui de uma forma nada prazerosa.
-E como foi? Você sabe muito
sobre mim, mas não sei nada sobre você... Bem, quase nada.
Gabriel levantou-se e pegou um livro médio
com capa de couro negra e bordados prateados e dourados nela. O padrão dos
desenhos era o mesmo do espelho de Helena e ela ficou surpresa tamanha a
semelhança.
-Este livro foi o “portal”
que me trouxe. -Gabriel o pegou, abriu o fecho e o mostrou para Helena com suas
folhas amareladas e vazias. –Eu o encontrei num sebo de livros na minha cidade.
Assim que o encontrei o abri para ver do que se tratava seu conteúdo. Todas as
páginas estavam assim. Amareladas e vazias. Entretanto, quando voltei à
primeira página um parágrafo surgiu misteriosamente. Lembro-me de cada palavra:
”Com as letras desta página o véu do universo se abre e Gabriel viaja a Ignar.
Seus pés não tocam mais o chão de sua Terra. Seus olhos começaram a enxergar a
biblioteca de Trumptom. Sua mente ficou absorta em sonhos enquanto vagou pelo
Cosmos até chegar aqui. Ao retomar a consciência percebeu que chegara à casa de
Eríon”. Parecia até uma espécie de transe. –Continuou ele. –Assim que terminei
de ler aquelas palavras vi que estava na biblioteca daqui. Lá encontrei com o
professor Henry que me norteou assim como Silvia fez com você.
A conversa seguiu com mais explicações de
Gabriel e perguntas de Helena. Apenas para não o deixar confuso, caro leitor,
vou somente esclarecer algumas dúvidas quanto à escola Trumptom. Os alunos
chegam a ela quando completam quinze anos de idade para aprender sobre sua
casta. De acordo com seus talentos e aptidões vão para uma das seis já ditas
por Gabriel. Aos dezoito anos os alunos podem fazer uma espécie de teste
prático para comprovarem que estão prontos para exercerem um ofício. Caso não
passem podem ficar na escola até os vinte anos tentando. Nunca houve um caso de
reprovação em Trumptom tamanha é sua qualidade. Os alunos vêm de toda a Ignar
para estudarem nela. Sua estrutura é mantida pelos seis governantes de Ignar.
Um para cada classe social. Foi a primeira escola criada em Ignar a beira do
Lago Sereiano. Helena ainda não havia visto o que há por de trás da escola por
isso ainda não citei o Lago Sereiano antes.
Depois de mais ou menos uma hora de
conversa, Gabriel começou a pestanejar. Helena logo que percebeu parou com as
perguntas. Ele apenas vestiu seu pijama no banheiro, guardou os livros que
estavam sobre a cama no criado-mudo e adormeceu rapidamente. Helena guardou
suas roupas exceto a capa branca. Aquela vestimenta a encantava de uma forma
muito latente. Assim que terminou de organizar tudo apagou as luzes do quarto
deixando apenas o seu abajur acesso. Ficou
de pé para observar como a capa vestia-lhe muito bem. Foi até o banheiro e
vestiu o capuz na frente do espelho para ver como ficou.
Helena sentiu-se mais forte, protegida e
sábia com aquela capa. Havia certa força nela que a fazia muito bem. A sensação
de estar em casa só aumentara.
O sono não chegava de jeito nenhum. Helena
ficou animada com tudo o que Gabriel lhe contara sobre Trumptom. A maneira como
ele o fez também ajudou bastante. Todo o medo e insegurança se foram com a
chegada da presença de Silvia e Gabriel. Todo o caos em sua mente sumiu com o
carinho de Silvia e a amizade de Gabriel. Ela sentiu que podia confiar nos dois
para o que der e vier. O reflexo de Helena no espelho parecia diferente da
Helena de algumas horas atrás na praia. Com certeza havia algo diferente nela.
Helena despiu a capa e a guardou com o
maior cuidado o possível em seu guarda-roupa. Deitou-se na tentativa de pegar
no sono, mas isso não aconteceu. Sentou-se na cama e percebeu que o invólucro
que as fadas lhe deram também brilhava com tais. Pegou em sua mão e o cutucou
com um pouco de curiosidade. Gabriel virou-se para ela e disse:
-Se eu fosse você não faria
isto.
Helena assustou-se e pôs a mão no peito
num reflexo seu. Gabriel desculpou-se com ela e continuou a falar.
-Ninhos de fada são muito
sensíveis. Você pode machucar o filhote.
-Então eu ganhei uma fada de
presente. É isto? –Perguntou Helena achando aquilo um pouco estranho. –E mais
uma coisa, você não estava dormindo?
-Sim e não. Sim, você ganhou
uma fada e não, eu não estava dormindo. Apenas cochilei. Nunca fui de dormir na
hora certa. Toda vez que fecho os olhos mil coisas surgem na minha cabeça e mal
consigo dormir. Já até me acostumei.
Helena deixou o ninho de fada onde estava
e perguntou a Gabriel:
-E este ovo dourado? O que
vai nascer dele? –Apontou Helena para o ovo em cima de um suporte no criado
mudo de Gabriel.
-O professor Henry me disse
que é um ovo de grifo. O encontrei no meu primeiro dia de aula quando a turma
de alquimistas foi fazer uma aula de campo na floresta sobre ervas. Só não sei
quando vai nascer.
Helena reconheceu a palavra grifo logo de
cara, mas demorou alguns segundos para associá-la ao que significa. Grifos são
seres híbridos com o corpo de leão e cabeça e asas de águia. Algumas histórias
os retratam com algumas variações morfológicas, porém é basicamente isto.
Um silêncio tomou conta do local. Helena
deitou-se e ficou observando o teto. Gabriel também fez o mesmo e quando ela
pensou em falar algo percebeu que ele havia pegado no sono. Ela apenas
conseguiu alguns minutos depois e não sonhou com nada. Uma fadiga a tomou por
inteiro e descansar foi o único prazer que aquela breve noite de sono a
proporcionou.
Gabriel foi o seu despertador. Ele já
estava uniformizado e pronto para descer. Os aprendizes de filósofos usam
camisas e calças comuns como uniforme. A única peça que os identifica é uma
cartola negra. Cada classe tem seu respectivo uniforme em Trumptom como uma
forma de sinalizar e padronizar os alunos. Helena espreguiçou-se, esfregou bem
os olhos e lhe desejou um bom dia.
-Que o grande Pai lhe aqueça
também. –Respondeu ele com um sorriso no rosto enquanto sentava em sua cama e
arrumava o material numa pequena bolsa de pano a tiracolo. Era bem simples e
cabia nela apenas um caderno, alguns lápis e afins.
Helena sentou-se na cama, bocejou e ficou
com uma expressão de “Hã? Como assim?”. Gabriel sorriu de soslaio e logo lhe
explicou o costume.
-É a forma ignariana de se
dizer “bom dia”. Durante a noite falamos “Que a grande Mãe lhe ilumine”.
Helena levantou-se morosamente, coçou a
cabeça fazendo com que seus cachos ficassem ainda mais bagunçados e disse:
-E quem são o grande Pai e
Mãe?
-Apenas as maiores
divindades de Ignar! –Brincou Gabriel. –Ambos apenas criaram a civilização ignariana
e tudo mais. Aconselho você a ir se acostumando com essas coisas de clérigo.
Acordei um pouco atrasado então, seria bom se você se apressasse um pouco.
Assim o fez Helena. Rapidamente abriu o
guarda-roupa, pegou uma toalha, uma camisa branca, calça e roupas íntimas.
Colocou um par de sapatilhas pretas sobre a cama com um par de meias e sua
capa. Rapidamente tomou banho, fez sua assepsia matinal e saiu para terminar de
se aprontar. Gabriel havia forrado sua cama e a esperava sentado na sua conferindo
seus materiais. Seus últimos itens de vestuário estavam exatamente onde deixou
sobre a cama. Calçou as meias e as sapatilhas rapidamente e em seguida vestiu
sua capa. Pronto! Agora sim Helena estava uma legítima aluna de Trumptom.
Gabriel e ela desceram para o salão de
estar. Ele a guiava pelos corredores do palácio que estavam muito bem
iluminados pelos raios de Sol que adentravam pelos vitrais e grandes janelas.
Eram mais ou menos oito horas da manha quando ambos chegaram ao salão de estar.
Foi difícil encontrar uma mesa que estivesse totalmente desocupada afinal o
salão havia começado a exercer sua função. Bandejas flutuavam de um lado ao
outro até chegarem à mesa dos alunos. Ao fundo do salão estava a mesa dos
professores. Cada um deles em seus respectivos lugares e Silvia na cabeceira da
mesa.
Já era possível ouvir alguns talheres tilintando
nos pratos e o som de várias conversas paralelas também. Mas tudo isso de uma
forma maneirada, pois o dia apenas acabou de começar em Trumptom. O cheiro de
pães quentinhos com café fez o estômago de Helena delirar. As bandejas serviam
de um tudo: Pães, frutas, frios, café, sucos e afins. Não demorou muito para
que a comida chegasse até os dois por duas bandejas prateadas. No cardápio
havia tudo o que tinham de direito. Helena apossou-se logo dos talheres e afins
que estavam à mesa para comer. Encheu uma xícara bordada com o brasão da escola
de café com leite e começou a comer. Gabriel era mais comedido e vagaroso.
Mastigava a comida o mais devagar o possível.
Era impossível não ignorar os cochichos
sobre eles dois. Principalmente sobre Helena. Os olhares de soslaio entregavam
os alvos das piadinhas e risadas de provocação. Gabriel apenas ignorava, mas
Helena não. Sua face de constrangimento e raiva a entregavam.
-Preparada para a sua
primeira aula? –Perguntou Gabriel limpando o canto da boca com um guardanapo.
-Não sei. Acho que sim.
–Respondeu ela após engolir toda a raiva dos demais alunos.
Veja bem, não que todos os alunos de
Trumptom sejam ruins ma querendo ou não os bochichos sobressaem na multidão
neste tipo de situação. Enfim!
Findado o horário das refeições, os
professores foram os primeiros a saírem. Os alunos tinham uns dez minutos para
escovarem os dentes, recolherem algo mais que necessitassem e dirigirem-se à
aula. Gabriel continuou guiando Helena pela escola e não parava de falar
explicando sobre tudo o que encontravam. Os quadros, vasos, móveis e tudo mais
eram alvos de suas dissertações históricas. Mas isso não a incomodava de forma
alguma.
Ao descerem para dirigirem-se às suas
respectivas salas Gabriel continuou a guiá-la fazendo surgir uma pergunta em
sua mente:
-Você não deveria ir para
algum lado diferente do meu? –Perguntou Helena interrompendo uma explicação
sobre o lustre do salão de entrada enquanto passavam por debaixo dele.
-Sim e não. –Gabriel
titubeou por alguns instantes e respondeu a ela. –Nós aprendizes de filósofos,
temos a liberdade de assistir a qualquer aula contanto que façamos anotações
sobre o que aprendemos e observamos. Na sexta-feira todos nós compartilhamos
destes conhecimentos adquiridos para com a turma e sobre as nossas conclusões
também. Desde que comecei na semana passada eu estou frequentando uma aula de
cada. Já que você está literalmente perdida, ainda, eu vou com você para a aula
da professora Clorin.
Clorin. Um nome muito atípico para Helena
e de uma sonoridade muito estranha para seus ouvidos. Ela e Gabriel passaram
pelo salão de entrada e adentraram outra sala cheia de cristaleiras à direita.
Nesta a luminosidade era mais divina devido aos inúmeros objetos de cristal que
lá estavam fazendo a luz dividir-se nas sete cores do arco-íris. Um grande
pórtico em arco dava acesso aos fundos da escola e já era possível ver a margem
do Lago Sereiano. Helena logo se animou ao perceber a sua existência nos fundos
da escola.
Lá fora ela pode perceber a magnitude do
lago. Do lado onde estava há um pequeno cais de madeira com uns vinte metros de
comprimento por uns quatro de largura. A água é cristalina e conforme se afasta
da margem vai ficando azulada e profunda. Os respectivos prédios de cada classe
faziam um “U” um pouco atrás de Trumptom e à frente do lago. À direita estava a
quadra coberta dos guerreiros, a oficina dos artesãos e por fim o teatro dos
artistas. À esquerda, o prédio com laboratório e enfermaria dos alquimistas, o
templo dos clérigos e a biblioteca dos filósofos.
Helena estava animada para qualquer coisa
que lhe ensinassem na aula e Gabriel também aparentava o mesmo. Enquanto
dirigiam-se ao templo por um caminho de areia branca sentiram uma leve brisa
tocar-lhes o rosto. O Sol radiava majestosamente e pequenas ondas formavam-se
sobre a superfície do lago. A movimentação de alunos era grande e cada vez que
se aproximavam do templo mais aprendizes de clérigos surgiam dentre os demais
alunos com suas capas branquíssimas esvoaçando na brisa e capuzes sobre as
cabeças.
texto ótimo,bom enredo,eu sempre soube q vc tinha futuro
ResponderExcluirObrigado pelo elogio. (^-^)
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